Infecção de Prótese de Quadril: Quais São os Sinais?
Conheça os sinais de infecção de prótese de quadril, quando procurar atendimento e como são feitos o diagnóstico e o tratamento.
Dr. Gabriel Benevides
7/31/202610 min read


A infecção de prótese de quadril é uma complicação incomum, mas potencialmente grave. Ela ocorre quando microrganismos alcançam os tecidos ao redor dos componentes implantados e pode surgir logo após a cirurgia ou muitos anos depois.
Os sinais nem sempre são evidentes. Algumas pessoas apresentam febre, vermelhidão e secreção pela ferida, enquanto outras percebem apenas dor persistente, rigidez ou piora da função em um quadril que antes evoluía bem.
Reconhecer mudanças no padrão da recuperação e procurar avaliação precocemente pode facilitar o diagnóstico e ampliar as opções de tratamento. Neste artigo, você entenderá quais sintomas merecem atenção, quais exames podem ser utilizados e por que antibióticos por conta própria devem ser evitados.
Índice
O que é a infecção de prótese de quadril?
Quais são os principais sinais de infecção?
É possível ter infecção sem febre?
Como diferenciar cicatrização normal de um sinal de alerta?
A infecção pode aparecer anos depois?
De onde vêm as bactérias?
Quem apresenta maior risco?
Quando procurar atendimento urgente?
Como é feito o diagnóstico?
Por que não tomar antibiótico antes da avaliação?
Como a infecção de prótese é tratada?
É sempre necessário retirar a prótese?
Como reduzir o risco de infecção?
O que é a infecção de prótese de quadril?
Também chamada de infecção periprotética ou infecção periprotética articular, essa condição envolve os componentes da prótese e os tecidos próximos, como cápsula, osso e partes moles.
A presença de metal, cerâmica ou polietileno modifica a forma como o organismo combate os microrganismos. Bactérias podem aderir às superfícies do implante e produzir uma camada protetora chamada biofilme, que dificulta a ação das células de defesa e dos antibióticos.
Por esse motivo, a infecção profunda é diferente de uma irritação superficial da pele. O tratamento depende de quando os sintomas começaram, da estabilidade dos componentes, do microrganismo envolvido, das condições dos tecidos e da saúde geral do paciente.
Saiba mais em: Prótese de Quadril: Quando é Indicada e Como é a Recuperação
Quais são os sinais de infecção de prótese de quadril?
Os sintomas podem variar de um quadro agudo e evidente a uma alteração discreta e prolongada. Não é necessário apresentar todos os sinais para que a investigação seja indicada.
Entre as manifestações possíveis estão:
dor que não melhora conforme o esperado ou volta a aumentar;
dor em repouso ou rigidez persistente;
redução progressiva da capacidade de caminhar;
vermelhidão, calor ou inchaço que pioram ao redor da incisão;
secreção, pus ou líquido saindo da ferida;
abertura de parte da incisão;
febre, calafrios ou suor excessivo;
cansaço, perda de apetite ou mal-estar sem outra explicação;
fístula, pequeno orifício na pele que drena repetidamente;
piora de um quadril que anteriormente funcionava bem.
Alguns desses sintomas também podem ocorrer em hematoma, seroma, reação aos pontos, trombose, luxação e outras complicações. A avaliação médica é necessária para diferenciá-los.
Saiba mais em: Dor Após Prótese de Quadril: Quando é Esperada e Quando Investigar?
É possível ter infecção da prótese sem febre?
Sim. A ausência de febre não exclui infecção periprotética. Quadros de evolução lenta podem causar somente dor, rigidez ou perda de função, sem sinais sistêmicos importantes.
Febre e calafrios podem estar presentes, principalmente em infecções agudas, mas não devem ser usados isoladamente para confirmar ou descartar o diagnóstico. Da mesma forma, um episódio de febre pode ter outra origem, como infecção respiratória ou urinária.
O padrão dos sintomas, a ferida, os exames laboratoriais e a análise do líquido articular são avaliados em conjunto.
Como diferenciar a cicatrização normal de um sinal de alerta?
Nas primeiras semanas, é comum existir algum grau de dor, calor local, inchaço e alteração de cor ao redor da incisão. Esses achados tendem a diminuir progressivamente conforme a cicatrização avança.
O que chama atenção é a direção da evolução. Dor crescente, vermelhidão que se expande, inchaço que aumenta, secreção persistente, abertura da ferida ou piora depois de um período de melhora justificam contato rápido com a equipe responsável.
Pequenas quantidades de líquido logo após a cirurgia podem ter causas diferentes. Mesmo assim, drenagem que persiste, reaparece ou molha repetidamente o curativo deve ser comunicada ao cirurgião. Não aplique pomadas, substâncias caseiras ou novos curativos sem orientação.
Infecção superficial e infecção profunda são a mesma coisa?
Não. Uma infecção superficial permanece na pele e nos tecidos mais externos, sem atingir a articulação ou os componentes. Quando identificada precocemente, pode ter tratamento mais simples.
Na infecção profunda, microrganismos alcançam o espaço articular, o osso ou a superfície do implante. A formação de biofilme torna o tratamento mais complexo e frequentemente exige combinação de cirurgia e antibióticos.
O aspecto externo da ferida não determina sozinho a profundidade. Uma incisão aparentemente discreta pode coexistir com infecção profunda, enquanto vermelhidão superficial pode ter causa não infecciosa.
A infecção pode aparecer anos depois da cirurgia?
Sim. Infecções periprotéticas podem ser classificadas de diferentes maneiras conforme o tempo e o mecanismo, mas, para o paciente, o ponto principal é que elas não ocorrem apenas no pós-operatório imediato.
Infecção precoce
Surge nas primeiras semanas após a operação e pode estar relacionada ao período cirúrgico ou à cicatrização da ferida. Dor crescente, secreção, vermelhidão, febre e abertura da incisão são manifestações possíveis.
Infecção aguda por disseminação pelo sangue
Pode ocorrer quando bactérias de outra parte do organismo alcançam uma prótese que antes funcionava bem. O paciente pode apresentar início súbito de dor, inchaço e perda de função.
Infecção crônica
Pode evoluir lentamente, com dor persistente, rigidez, dificuldade para caminhar e poucos sinais externos. Em alguns casos, os sintomas aparecem meses ou anos depois da artroplastia.
De onde vêm as bactérias que infectam a prótese?
Os microrganismos podem alcançar a região durante o período cirúrgico, por uma falha na cicatrização ou pela corrente sanguínea a partir de outro foco do corpo.
Possíveis portas de entrada incluem infecções de pele, urinárias, respiratórias e odontológicas, além de feridas contaminadas. Isso não significa que todo episódio infeccioso causará problema na prótese; o sistema imunológico elimina a maioria das bactérias que entram transitoriamente na circulação.
O risco depende do microrganismo, da duração da bacteremia, das condições do paciente e do implante. Infecções ativas devem ser avaliadas e tratadas adequadamente.
Quem apresenta maior risco de infecção periprotética?
A infecção pode ocorrer mesmo sem um fator predisponente evidente, mas algumas condições aumentam o risco ou dificultam o tratamento.
Entre os fatores associados estão:
diabetes com controle inadequado;
tabagismo;
obesidade e desnutrição;
doenças que comprometem o sistema imunológico;
uso de medicamentos imunossupressores;
doença renal ou hepática avançada;
infecção ativa em outra parte do corpo;
problemas de pele próximos ao local da cirurgia;
cirurgias anteriores ou revisão de prótese;
tempo cirúrgico prolongado e complicações da ferida.
Esses fatores não significam que a cirurgia esteja contraindicada. Muitos podem ser reduzidos com planejamento, controle clínico e acompanhamento multiprofissional.
Quando procurar atendimento urgente?
Entre em contato rapidamente com o cirurgião se houver secreção na ferida, vermelhidão ou inchaço crescentes, dor que piora, abertura da incisão ou perda inesperada de função.
Procure um serviço de urgência quando os sintomas forem intensos ou vierem acompanhados de:
febre alta, calafrios importantes ou prostração;
confusão, tontura intensa ou sensação de desmaio;
respiração acelerada ou piora rápida do estado geral;
secreção abundante ou com aspecto purulento;
dor muito intensa e incapacidade para apoiar a perna;
vermelhidão que progride rapidamente.
Esses sinais podem indicar infecção grave ou outra complicação que não deve aguardar consulta eletiva.
Como é feito o diagnóstico?
Não existe um único exame capaz de esclarecer todos os casos. O diagnóstico combina história, exame físico, testes laboratoriais, imagens e, quando indicado, análise do líquido da articulação.
Exames de sangue
Proteína C-reativa e velocidade de hemossedimentação são marcadores de inflamação frequentemente utilizados na triagem. Podem se elevar por outros motivos e podem permanecer normais em algumas infecções, por isso não devem ser interpretados isoladamente.
Radiografias
As radiografias avaliam posição dos componentes, osso ao redor da prótese, soltura e outras causas de dor. Uma imagem normal não exclui infecção, especialmente nas fases iniciais.
Punção do quadril
Uma agulha é utilizada para coletar líquido da articulação, geralmente com orientação por imagem. O material pode ser analisado para contagem de células, marcadores específicos e cultura de microrganismos.
Amostras durante a cirurgia
Quando existe indicação cirúrgica, diferentes fragmentos de tecido podem ser enviados para cultura e análise. Obter várias amostras aumenta a qualidade da investigação e ajuda a definir o antibiótico.
Por que não tomar antibiótico antes da avaliação?
O uso de antibiótico sem orientação pode reduzir temporariamente os sintomas e dificultar o crescimento das bactérias nas culturas, atrasando a identificação do microrganismo responsável.
Quando o paciente está clinicamente estável, a equipe pode preferir coletar sangue, líquido articular ou tecidos antes de iniciar o tratamento. Em situações graves, com suspeita de infecção sistêmica, o antibiótico pode precisar ser administrado imediatamente. Essa decisão é médica.
Não utilize sobras de antibióticos nem repita uma receita antiga. A escolha do medicamento, da via e da duração depende do agente, dos exames, do procedimento realizado e das condições clínicas.
Como a infecção de prótese de quadril é tratada?
O tratamento é individualizado e geralmente envolve ortopedista especializado em reconstrução do quadril, infectologista e outros profissionais. Antibióticos são escolhidos de acordo com culturas e características do paciente.
As principais estratégias incluem:
Limpeza cirúrgica com retenção dos componentes
Em infecções identificadas precocemente, com componentes bem fixados e condições favoráveis, pode ser realizada limpeza ampla dos tecidos, troca das partes modulares e manutenção dos componentes fixos. Essa estratégia é frequentemente conhecida pela sigla DAIR.
Revisão em um tempo
Em casos selecionados, os componentes infectados são retirados e uma nova prótese é implantada na mesma operação, associada à limpeza dos tecidos e ao tratamento antimicrobiano.
Revisão em dois tempos
Os componentes são retirados, os tecidos são limpos e pode ser colocado um espaçador com antibiótico. Após um período de tratamento e reavaliação, uma nova prótese é implantada em outra cirurgia.
Tratamentos para situações específicas
Quando o paciente não possui condições para uma reconstrução extensa, podem ser consideradas estratégias de controle, antibiótico supressivo prolongado ou outros procedimentos. O objetivo e as limitações precisam ser discutidos individualmente.
Saiba mais em: Revisão de Prótese de Quadril: Quando é Necessária?
É sempre necessário retirar a prótese?
Não. Infecções superficiais e alguns quadros profundos identificados precocemente podem ser tratados sem remover todos os componentes. Entretanto, infecção crônica, implante solto, biofilme estabelecido ou tecidos comprometidos frequentemente exigem retirada e revisão.
A decisão não depende apenas do tempo desde a cirurgia. São considerados o início dos sintomas, o microrganismo, a estabilidade dos componentes, a qualidade óssea e muscular e a condição clínica do paciente.
A infecção pode causar soltura da prótese?
Sim. Inflamação persistente e atividade bacteriana podem comprometer o osso ao redor dos componentes, causando perda de fixação e dor. A soltura também pode ocorrer sem infecção, por mecanismos mecânicos e desgaste.
Por isso, uma prótese dolorosa e aparentemente solta deve ser investigada quanto à possibilidade de infecção antes de uma cirurgia de revisão.
Saiba mais em: Soltura da Prótese de Quadril: Sintomas e Tratamento
Como reduzir o risco de infecção?
Não é possível eliminar completamente o risco, mas medidas antes, durante e depois da cirurgia ajudam a reduzi-lo.
controlar diabetes e outras doenças crônicas;
interromper o tabagismo com antecedência;
tratar infecções ativas e problemas de pele antes da operação;
seguir as orientações de banho, curativo e cuidado da ferida;
não manipular a incisão com mãos não higienizadas;
comunicar drenagem, abertura ou piora da ferida;
manter acompanhamento odontológico e clínico regular;
procurar atendimento para infecções relevantes em outras partes do corpo;
não tomar antibióticos preventivos sem indicação individualizada.
O uso de antibiótico antes de procedimentos odontológicos não é indicado automaticamente para todas as pessoas com prótese. A decisão deve considerar o procedimento, o histórico do paciente e a orientação do ortopedista e do dentista.
Perguntas frequentes
Toda secreção na ferida significa infecção profunda?
Não. Seroma, hematoma e reação a pontos também podem causar drenagem. Como a aparência externa não define a profundidade, secreção persistente ou recorrente deve ser avaliada.
Uma infecção pode causar apenas dor?
Sim. Infecções crônicas podem se manifestar com dor, rigidez e piora funcional, sem febre ou secreção.
Exames de sangue normais descartam infecção?
Não completamente. Eles ajudam na triagem, mas o resultado precisa ser relacionado aos sintomas, à evolução, às imagens e, em alguns casos, à punção articular.
Antibiótico sozinho cura uma infecção profunda?
Na maioria dos quadros profundos, o biofilme e os componentes implantados tornam necessária alguma estratégia cirúrgica. Antibiótico supressivo isolado pode ser considerado em situações selecionadas, com objetivo de controle e não necessariamente de erradicação.
A infecção pode voltar depois do tratamento?
Pode. Recorrência depende do microrganismo, do biofilme, das condições dos tecidos, da saúde do paciente e do tratamento realizado. O acompanhamento precisa continuar mesmo após a melhora.
Dor e inchaço podem ser trombose?
Sim. Trombose, infecção e outras complicações podem compartilhar sintomas. Inchaço súbito na perna, dor na panturrilha, falta de ar ou dor no peito exigem avaliação urgente.
Saiba mais em: Trombose Após Prótese de Quadril: Riscos e Prevenção
Conclusão
A infecção de prótese de quadril pode surgir logo após a cirurgia ou anos depois. Dor persistente ou crescente, secreção, abertura da ferida, vermelhidão, inchaço e perda de função são sinais que justificam avaliação. Febre pode ocorrer, mas sua ausência não exclui o diagnóstico.
A investigação combina exame clínico, marcadores de inflamação, radiografias e, quando necessário, punção articular e culturas. Antibióticos não devem ser iniciados por conta própria, pois podem dificultar a identificação do microrganismo.
Quando existe infecção profunda, o tratamento frequentemente associa cirurgia e antibióticos. A estratégia escolhida depende do tempo dos sintomas, da fixação dos componentes, dos tecidos, da bactéria e das condições clínicas do paciente.
Referências
American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS). Infection After Joint Replacement.
American Association of Hip and Knee Surgeons (AAHKS). Infection and Your Hip Replacement.
National Health Service (NHS). Complications of a Hip Replacement.
Infectious Diseases Society of America (IDSA). Diagnosis and Management of Prosthetic Joint Infection: Clinical Practice Guidelines.
Parvizi J, Gehrke T. International Consensus on Periprosthetic Joint Infection.
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