Necrose avascular da cabeça femoral: sintomas e tratamento

Entenda causas, sintomas, diagnóstico e opções de tratamento da necrose avascular da cabeça femoral (osteonecrose do quadril).

Dr. Gabriel Benevides

6/9/202510 min read

Resumo: a necrose avascular da cabeça femoral, também chamada de osteonecrose do quadril, ocorre quando uma área da cabeça do fêmur perde vitalidade. A região enfraquecida pode sofrer fratura abaixo da cartilagem, deformar-se e evoluir para artrose. Nas fases iniciais, o objetivo é preservar a articulação; depois que existe colapso importante, a prótese de quadril costuma oferecer o resultado mais previsível.

O diagnóstico precoce é importante, mas não basta saber se existe necrose. O tratamento depende do estágio, do tamanho e da localização da lesão, da presença de sintomas e da causa provável. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem precisar de estratégias completamente diferentes.

O que é necrose avascular da cabeça femoral?

A cabeça femoral é a parte arredondada do fêmur que se articula com o acetábulo. O osso é um tecido vivo, irrigado por vasos sanguíneos e submetido a constante remodelação. Quando células ósseas e da medula morrem, a estrutura mineral inicialmente pode manter o formato, mas sua capacidade de suportar cargas diminui.

Com a repetição dos movimentos e do peso corporal, pode surgir uma fratura subcondral — localizada logo abaixo da cartilagem. A partir desse ponto, a superfície esférica pode achatar. O encaixe perde congruência, a cartilagem sofre e a doença pode terminar em artrose secundária.

“Avascular” não significa necessariamente que todo o sangue do quadril foi interrompido de uma vez. Na forma não traumática, diferentes mecanismos podem afetar a microcirculação, aumentar a pressão dentro do osso e comprometer sua capacidade de reparo.

Quais são as causas e os fatores de risco?

A osteonecrose pode ser traumática ou não traumática. Em parte dos casos, mesmo após investigação, não se identifica uma causa única; utiliza-se então o termo idiopática.

Trauma no quadril

Fraturas do colo do fêmur e luxações podem lesar os vasos que nutrem a cabeça femoral. O risco varia conforme o tipo de lesão, o desvio, o tempo até a redução e características individuais. A necrose pode se manifestar meses ou anos depois do trauma.

Corticoides

O uso sistêmico de corticosteroides, especialmente em doses cumulativas elevadas, é um dos fatores mais reconhecidos. Não existe uma dose única que permita prever com certeza quem desenvolverá a doença, e muitas pessoas que precisam desses medicamentos nunca terão osteonecrose.

Nunca interrompa corticoide por conta própria. A suspensão abrupta pode ser perigosa. Quando houver risco, a decisão deve envolver o médico que trata a doença de base e o especialista em quadril.

Consumo excessivo de álcool

Exposição crônica e elevada ao álcool também está associada à osteonecrose. O risco depende da quantidade, do tempo de consumo e de fatores metabólicos individuais. Reduzir ou interromper a exposição faz parte do cuidado, mas não reverte automaticamente uma lesão já estabelecida.

Outras condições associadas

  • anemia falciforme e outras doenças hematológicas;

  • lúpus e outras doenças autoimunes;

  • transplante de órgãos;

  • tratamentos oncológicos e radioterapia em situações específicas;

  • doença de Gaucher;

  • distúrbios de coagulação selecionados;

  • disbarismo, relacionado a variações de pressão;

  • pancreatite, infecção pelo HIV e outras condições menos frequentes.

A presença de um fator de risco não confirma o diagnóstico. Da mesma forma, a ausência desses fatores não exclui a doença.

Quais são os sintomas da osteonecrose do quadril?

A necrose avascular pode permanecer assintomática no início. Quando aparecem sintomas, o mais comum é dor profunda na virilha. Algumas pessoas sentem desconforto na nádega, na lateral do quadril ou na parte anterior da coxa, e ocasionalmente a dor pode ser percebida perto do joelho.

A dor costuma piorar ao caminhar, subir escadas, levantar-se de uma cadeira ou permanecer em pé. Com a progressão, pode surgir limitação para calçar sapatos, entrar no carro, cruzar as pernas ou girar o quadril. Dor em repouso e à noite tende a ser mais comum nos estágios avançados, mas não define sozinha a gravidade.

Sintomas semelhantes podem ocorrer em artrose, lesões do labrum, tendinopatias, impacto femoroacetabular e doenças da coluna. Por isso, a localização da dor orienta a investigação, mas não substitui o exame físico e as imagens.

Saiba mais em: Dor na Virilha: Quando Pode Vir do Quadril?

A necrose avascular pode ocorrer nos dois quadris?

Sim. Nas formas não traumáticas, o acometimento bilateral é frequente, embora os dois lados não precisem estar no mesmo estágio nem causar sintomas simultaneamente. Quando o diagnóstico é confirmado em um quadril, o médico avalia sintomas, fatores de risco e imagens para decidir se o lado oposto também precisa ser investigado.

Isso não significa que toda pessoa precise realizar ressonância dos dois lados indefinidamente. A indicação deve ser individualizada.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico começa pela história clínica. O especialista procura saber quando a dor surgiu, onde é sentida, como interfere na rotina, se houve trauma e se existem exposições como corticoides ou álcool. O exame físico avalia marcha, amplitude de movimento, força e outras possíveis fontes de dor.

Radiografia

A radiografia é importante para observar o formato da cabeça femoral, sinais de esclerose ou cistos, fratura subcondral, achatamento e artrose. Entretanto, ela pode estar completamente normal na fase inicial. Uma radiografia normal não exclui osteonecrose quando a suspeita clínica é relevante.

Ressonância magnética

A ressonância magnética é o exame mais sensível para detectar osteonecrose precoce e delimitar a extensão da área comprometida. A revisão sistemática produzida para o desenvolvimento da diretriz da ARCO encontrou maior sensibilidade e especificidade para a ressonância em comparação com outros métodos de imagem.

O exame também ajuda a identificar edema da medula e diagnósticos alternativos. Ainda assim, a interpretação deve ser correlacionada com sintomas e radiografias: alterações de imagem não determinam automaticamente a necessidade de cirurgia.

Tomografia computadorizada

A tomografia não costuma ser o primeiro exame para detectar a doença, mas pode esclarecer fratura subcondral e o grau de depressão da cabeça femoral quando há dúvida. Ela pode ser útil no planejamento de casos selecionados.

Saiba mais em: Radiografia ou Ressonância do Quadril: Qual Exame é Indicado?

Como funciona o estadiamento da necrose avascular?

O sistema ARCO revisado em 2019 divide a doença em quatro estágios. Ele descreve a situação estrutural da cabeça femoral, mas tamanho e localização da lesão também são importantes para estimar risco de progressão.

  • ARCO I: radiografia normal, com alteração demonstrada por ressonância magnética ou outro método sensível.

  • ARCO II: radiografia já apresenta alterações, mas não há fratura subcondral nem achatamento.

  • ARCO III: existe fratura subcondral ou na área necrótica. O estágio IIIA apresenta depressão de até 2 mm; no IIIB, a depressão é maior que 2 mm.

  • ARCO IV: há artrose, com redução do espaço articular e alterações também no acetábulo.

Na prática, os estágios I e II são chamados de pré-colapso. Neles, pode existir oportunidade para preservação da cabeça femoral. O estágio III já representa falha estrutural, e o IV corresponde à doença articular avançada.

O tamanho e a localização da lesão importam?

Muito. Lesões pequenas e localizadas fora da principal área de carga podem permanecer estáveis por anos. Lesões amplas e situadas na porção lateral da cabeça femoral suportam maior carga e apresentam risco mais elevado de sintomas e colapso.

Por isso, duas pessoas classificadas como ARCO II podem ter prognósticos diferentes. O estágio informa se houve colapso; a extensão e a localização ajudam a estimar a probabilidade de ele acontecer.

Necrose avascular tem cura?

A resposta depende do que se entende por cura. Não existe medicamento capaz de simplesmente “reviver” toda a área necrosada. Em lesões pequenas, o quadril pode permanecer sem sintomas e sem progressão. Em casos precoces selecionados, procedimentos de preservação podem aliviar a dor e reduzir a chance de colapso ou adiar a prótese.

Quando a cabeça femoral já perdeu sua forma e existe artrose, o objetivo deixa de ser reconstruir o osso original. Nessa fase, a substituição da articulação costuma ser a opção com resultado mais previsível.

Tratamento sem cirurgia

O tratamento não cirúrgico é ajustado ao estágio, ao tamanho da lesão e aos sintomas. Ele pode incluir:

  • redução temporária de carga com bengala ou muletas quando necessário;

  • adaptação das atividades, evitando impacto e piora repetida da dor;

  • analgésicos ou anti-inflamatórios quando indicados e seguros;

  • fisioterapia para manter mobilidade, força e condicionamento sem sobrecarregar a área;

  • controle das doenças associadas e redução de exposições modificáveis;

  • acompanhamento clínico e radiográfico de lesões selecionadas.

Essas medidas podem controlar sintomas, mas não devem ser apresentadas como garantia de impedir progressão. Restrição prolongada de carga, isoladamente, também não demonstrou capacidade consistente de evitar colapso em lesões de alto risco.

Bisfosfonatos e outros medicamentos

Bisfosfonatos, anticoagulantes, vasodilatadores, estatinas e outros medicamentos já foram estudados. Os resultados são inconsistentes e não sustentam uma prescrição universal. Meta-análise de ensaios randomizados não demonstrou benefício clínico consistente dos bisfosfonatos sobre placebo.

Alguns fármacos podem ser considerados em contextos muito específicos ou para tratar uma condição associada, mas devem ser discutidos individualmente. Automedicação pode trazer riscos sem modificar a história natural da osteonecrose.

Cirurgias para preservar a cabeça femoral

Os procedimentos preservadores apresentam melhores resultados antes do colapso, sobretudo em lesões pequenas ou moderadas. Nenhuma técnica oferece garantia de evitar a prótese.

Descompressão central

Na descompressão central, um ou mais canais são feitos no colo e na cabeça femoral até a área de necrose. O objetivo é reduzir a pressão intraóssea e estimular uma resposta reparadora. O resultado depende fortemente do estágio, do tamanho da lesão e da causa.

Pode-se associar enxerto ósseo, concentrado de aspirado de medula ou outras terapias biológicas. Algumas revisões encontraram menor progressão e menor conversão para prótese com a adição de células derivadas da medula, mas a qualidade e a padronização dos estudos variam. A revisão sistemática da ARCO publicada em 2026 concluiu que a evidência para intervenções precoces ainda é limitada e predominantemente observacional.

Enxertos e osteotomias

Enxertos vascularizados ou não vascularizados e osteotomias podem ser utilizados em pacientes cuidadosamente selecionados. São procedimentos mais complexos, dependem de experiência específica e não são apropriados para todos os padrões de lesão.

A possibilidade de preservar o quadril deve ser discutida cedo. Esperar até que exista deformidade importante pode reduzir de forma significativa a chance de sucesso dessas técnicas.

Quando a prótese de quadril é indicada?

A artroplastia total do quadril costuma ser considerada quando há colapso significativo, artrose secundária, dor persistente e perda funcional que não respondem adequadamente às medidas menos invasivas. Também pode ser a melhor opção quando uma tentativa de preservação falhou.

A osteonecrose frequentemente afeta adultos jovens. Por isso, a durabilidade do implante, o nível de atividade e a possibilidade de uma revisão futura fazem parte da decisão. Mesmo assim, adiar uma prótese necessária a qualquer custo pode prolongar dor, perda muscular e limitação sem benefício real.

Próteses modernas proporcionam melhora importante de dor e função em muitos pacientes com osteonecrose. O resultado individual, contudo, depende da causa da doença, das condições clínicas, da qualidade óssea e da técnica cirúrgica.

Saiba mais em: Prótese de Quadril em Pacientes Jovens: Quando é Indicada?

Saiba mais em: Prótese de Quadril: Quando é Indicada e Como é a Recuperação

A osteonecrose pode virar artrose?

Sim. Quando a cabeça femoral colapsa, ela deixa de deslizar de forma congruente dentro do acetábulo. Isso concentra pressão, danifica a cartilagem e pode produzir artrose secundária. Nessa fase, a dor costuma ficar mais frequente e a mobilidade diminui.

Saiba mais em: Artrose do Quadril: Sintomas, Diagnóstico e Tratamento

Perguntas frequentes

Necrose avascular sempre causa dor?

Não. Algumas lesões são descobertas antes dos sintomas. O risco de progressão é maior em lesões extensas e laterais; pequenas lesões assintomáticas podem permanecer estáveis. O acompanhamento deve considerar o padrão da imagem, não apenas a presença de dor.

Por que o diagnóstico precoce é tão importante?

Porque a preservação da cabeça femoral é mais viável antes da fratura subcondral e da deformidade. Depois que a articulação perde sua forma, os procedimentos preservadores tornam-se menos previsíveis e a prótese passa a ser considerada com maior frequência.

Quando procurar um especialista em quadril?

Procure avaliação se houver dor persistente na virilha ou limitação para caminhar, especialmente na presença de uso prolongado de corticoides, consumo excessivo de álcool, doença falciforme, transplante, doença autoimune ou trauma importante no quadril.

A investigação deve ser mais rápida quando a dor progride, aparece em repouso ou causa perda de mobilidade. O objetivo não é solicitar exames indiscriminadamente, mas reconhecer quem pode se beneficiar de diagnóstico e tratamento antes do colapso.

Referências científicas

  1. Parikh RR, Mirzaei A, Butler ME, et al. Diagnosis and Treatment of Nontraumatic Osteonecrosis of the Femoral Head: A Systematic Review and Meta-Analyses for the ARCO Clinical Practice Guideline Development Workgroup. Medical Sciences. 2026;14(1):107. doi:10.3390/medsci14010107.

  2. Yoon BH, Mont MA, Koo KH, et al. The 2019 Revised Version of Association Research Circulation Osseous Staging System of Osteonecrosis of the Femoral Head. Journal of Arthroplasty. 2020;35(4):933-940. doi:10.1016/j.arth.2019.11.029.

  3. Zhang YZ, Cao XY, Li XC, et al. Accuracy of MRI diagnosis of early osteonecrosis of the femoral head: a meta-analysis and systematic review. Journal of Orthopaedic Surgery and Research. 2018;13:167. doi:10.1186/s13018-018-0836-8.

  4. Saini U, Jindal K, Rana A, et al. Core decompression combined with intralesional autologous bone marrow derived cell therapies for osteonecrosis of the femoral head in adults: A systematic review and meta-analysis. The Surgeon. 2023;21(3):e104-e117. doi:10.1016/j.surge.2022.04.010.

  5. Yuan HF, Guo CA, Yan ZQ. The use of bisphosphonate in the treatment of osteonecrosis of the femoral head: a meta-analysis of randomized control trials. Osteoporosis International. 2016;27(1):295-299. doi:10.1007/s00198-015-3317-5.

  6. Kang JS, Moon KH, Kwon DG, Shin BK, Woo MS. The natural history of asymptomatic osteonecrosis of the femoral head. International Orthopaedics. 2013;37(3):379-384. doi:10.1007/s00264-013-1775-y.

  7. Pierce TP, Elmallah RK, Jauregui JJ, Verna DF, Mont MA. Outcomes of total hip arthroplasty in patients with osteonecrosis of the femoral head: a current review. Current Reviews in Musculoskeletal Medicine. 2015;8(3):246-251. doi:10.1007/s12178-015-9283-x.

Agende sua consulta em Moema

O Dr. Gabriel Benevides é ortopedista especialista em Cirurgia do Quadril, com atuação especialmente voltada à prótese de quadril, além do diagnóstico, tratamento e preservação da articulação.

As consultas são realizadas de forma particular. Para pacientes que possuem plano de saúde com possibilidade de reembolso, a equipe fornece recibo e orienta sobre a documentação necessária para a solicitação. A análise e o pagamento dependem das regras de cada contrato e operadora.

CRM-SP 220.717 | RQE 124.963 | TEOT 20.133

Dr. Gabriel Benevides | Ortopedia e Cirurgia de Quadril
Gabriel Benevides Valiate Martins — CRM-SP 220.717 | RQE 124.963
Médico ortopedista especialista em Cirurgia do Quadril em São Paulo.

Consultório Moema / Indianópolis

🏥Avenida Açocê, 50, 2º Andar, Indianópolis - São Paulo/SP

📱Whatsapp: (11) 9 7878-0538
📞Telefone: (11) 4935-9945

© 2026. Todos os direitos reservados.

Logotipo oficial do Dr. Gabriel Benevides, clínica de ortopedia e cirurgia de quadril em São Paulo
Logotipo oficial do Dr. Gabriel Benevides, clínica de ortopedia e cirurgia de quadril em São Paulo

Informe Legal

As informações deste site têm finalidade educativa e não substituem avaliação médica individualizada. Diagnóstico e tratamento dependem de consulta médica, exame físico e análise de exames complementares.