O que preciso saber sobre a Prótese de Quadril?
Descubra como é feita a artroplastia do quadril, quais os tipos de anestesia, como se preparar para a cirurgia e o que esperar do pós-operatório. Entenda como esse procedimento pode transformar sua qualidade de vida.
Dr. Gabriel Benevides
2/21/202510 min read
A cirurgia de prótese de quadril — também chamada de artroplastia do quadril — substitui as superfícies articulares comprometidas por componentes artificiais. Para quem já recebeu a indicação, compreender o preparo, a anestesia, a internação e os primeiros cuidados depois da operação ajuda a tomar decisões mais conscientes e a atravessar o processo com expectativas realistas.
Este guia responde às dúvidas mais comuns de quem está se preparando para uma prótese de quadril. As orientações são gerais: exames, medicamentos, jejum, tempo de internação e restrições devem ser definidos individualmente pelo cirurgião, pelo anestesiologista e pela equipe responsável.
O que é a prótese de quadril?
Na artroplastia total do quadril, a cabeça do fêmur e a superfície do acetábulo que apresentam desgaste são substituídas. Em geral, o conjunto inclui uma haste femoral, uma nova cabeça, um componente acetabular e uma superfície de contato entre as partes. O objetivo principal é reduzir a dor e melhorar a função; nenhum procedimento, entretanto, permite prometer ausência completa de sintomas ou um resultado idêntico para todas as pessoas.
A indicação costuma ser considerada quando a doença articular provoca dor e limitação relevantes, o tratamento não cirúrgico já não oferece controle satisfatório e os achados clínicos são compatíveis com os exames. A decisão não deve se basear apenas na radiografia: intensidade dos sintomas, impacto na rotina, saúde geral e expectativas também importam.
Saiba mais em: Prótese de Quadril: Quando é Indicada e Como é a Recuperação
Quais decisões são tomadas antes da cirurgia?
A prótese é planejada de acordo com o diagnóstico, a anatomia, a qualidade óssea, a idade biológica, o nível de atividade e outras características do paciente. Entre as decisões discutidas estão a via de acesso, o tipo de fixação, o tamanho dos componentes e os materiais da superfície de contato.
Não existe uma prótese universalmente “melhor”. Um componente pode ser excelente para determinado perfil e inadequado para outro. Mais importante do que escolher um implante por propaganda ou marca é entender por que aquela combinação foi indicada e qual é a experiência da equipe com ela.
Saiba mais em: Tipos de Prótese de Quadril: Materiais e Componentes
Saiba mais em: Prótese Cimentada ou Não Cimentada: Qual a Diferença?
Como é a avaliação pré-operatória?
A avaliação começa com a confirmação da indicação e a identificação de fatores que podem ser otimizados antes do procedimento. Conforme o perfil clínico e o protocolo do hospital, podem ser solicitados exames laboratoriais, eletrocardiograma e avaliações complementares. O objetivo não é criar uma lista igual para todos, mas reconhecer riscos modificáveis e planejar o cuidado.
Condições de saúde que merecem atenção
Anemia: deve ser investigada e, quando possível, corrigida, porque pode aumentar a probabilidade de transfusão e retardar a recuperação.
Diabetes: o controle glicêmico deve ser avaliado, pois níveis persistentemente elevados se associam a maior risco de complicações.
Tabagismo: interromper o cigarro com antecedência pode reduzir riscos respiratórios e favorecer cicatrização.
Nutrição e peso: perda de peso não é uma exigência automática para todos, mas desnutrição, obesidade e deficiência proteica podem exigir um plano específico.
Infecções ativas: problemas de pele, dentes, urina ou vias respiratórias devem ser comunicados. Nem todo achado exige adiar a cirurgia, mas ele precisa ser avaliado.
Doenças cardíacas, pulmonares ou renais: podem modificar a anestesia, a reposição de líquidos e o acompanhamento durante a internação.
Exercícios e preparo físico antes da prótese
Manter-se ativo dentro do limite da dor, praticar os exercícios indicados e aprender previamente a usar andador ou muletas pode facilitar a adaptação. Programas de pré-habilitação apresentam resultados promissores em alguns desfechos, mas os estudos ainda são heterogêneos e não permitem garantir uma recuperação mais rápida para todos. O programa deve ser proporcional à capacidade funcional e não deve piorar os sintomas.
Quais medicamentos precisam ser revistos?
Não suspenda nem mantenha medicamentos por conta própria. Leve uma relação completa com nomes, doses e horários, incluindo vitaminas, fitoterápicos e medicamentos de uso eventual. A orientação varia conforme o fármaco, a doença tratada, a anestesia e o risco de sangramento ou trombose.
Anticoagulantes e antiagregantes: podem precisar de ajuste temporário, mas a suspensão e a eventual “ponte” não são universais. O plano deve considerar simultaneamente o risco de sangramento e o risco cardiovascular ou trombótico.
Insulina e outros medicamentos para diabetes: exigem um esquema individual para o período de jejum e para o retorno da alimentação.
Medicamentos agonistas de GLP-1: a orientação multissocietária de 2024 informa que a maioria dos pacientes pode continuar o tratamento. Pessoas em fase de aumento de dose, com sintomas gastrointestinais ou maior risco de esvaziamento gástrico retardado podem precisar de dieta líquida por 24 horas, ajustes anestésicos ou adiamento. A decisão deve seguir a equipe e o protocolo do hospital.
Medicamentos reumatológicos e imunossupressores: alguns são mantidos e outros pausados por um intervalo específico. A conduta depende do medicamento e da doença de base.
Suplementos e produtos “naturais”: também devem ser informados, pois podem interferir na coagulação, na pressão arterial ou na anestesia.
Como funciona o jejum para a cirurgia?
A ideia de que todos precisam ficar oito horas sem comer e sem beber absolutamente nada não serve como regra universal. Líquidos claros, refeições leves e alimentos gordurosos têm tempos de esvaziamento diferentes; diabetes, refluxo, sintomas gastrointestinais e alguns medicamentos também podem alterar o planejamento.
Siga exatamente a orientação escrita do hospital e do anestesiologista. Se houver dúvida, confirme antes da internação. Comer ou beber fora do período permitido pode exigir o adiamento da cirurgia, enquanto prolongar o jejum por conta própria também pode trazer desconforto e desidratação.
Qual anestesia é utilizada na prótese de quadril?
A cirurgia pode ser realizada com anestesia regional, frequentemente associada à sedação, ou com anestesia geral. Analgesia local e medicamentos de diferentes classes podem integrar um protocolo multimodal para reduzir dor, náusea e uso de opioides.
Não existe uma modalidade obrigatoriamente superior em todas as situações. O anestesiologista considera doenças prévias, exame da via aérea, uso de anticoagulantes, duração prevista, preferências do paciente e protocolo institucional. A consulta pré-anestésica é o momento adequado para relatar experiências anteriores, alergias, apneia do sono e receio de náusea ou dor.
O que acontece durante a cirurgia?
De forma resumida, o cirurgião acessa a articulação, remove as superfícies comprometidas, prepara o acetábulo e o fêmur, posiciona os componentes e testa estabilidade, amplitude de movimento e comprimento dos membros. Depois, realiza o fechamento por planos. A duração depende da complexidade anatômica, do tipo de prótese e de eventuais cirurgias anteriores; por isso, um tempo exato não deve ser usado como garantia.
Saiba mais em: Como é Feita a Cirurgia de Prótese de Quadril?
Como são as primeiras horas depois da prótese?
Após o procedimento, o paciente permanece em recuperação anestésica e é monitorado. Dor, sonolência, náusea, inchaço e alguma dificuldade inicial para movimentar a perna podem ocorrer, mas devem ser acompanhados pela equipe. Protocolos de recuperação acelerada combinam educação, analgesia multimodal, prevenção de náusea, alimentação e mobilização tão logo isso seja seguro.
Em muitos casos, o paciente fica em pé e inicia a marcha no mesmo dia ou no dia seguinte, com orientação profissional. Isso não significa acelerar de forma imprudente: a carga permitida, o dispositivo de apoio e a distância dependem da estabilidade da prótese, da qualidade óssea e das condições clínicas.
A prevenção de trombose pode envolver mobilização precoce, exercícios, métodos mecânicos e medicação. O esquema e a duração são individualizados conforme o equilíbrio entre risco trombótico e risco de sangramento.
Saiba mais em: Trombose Após Prótese de Quadril: Riscos e Prevenção
Quando o paciente pode receber alta?
A alta não depende apenas de contar horas ou dias. Em geral, a equipe observa se a dor e a náusea estão controladas, se o paciente consegue se alimentar, urinar, levantar-se e caminhar com segurança, se a ferida está adequada e se existe apoio em casa. Algumas pessoas recebem alta mais cedo; outras precisam de observação adicional por razões clínicas ou sociais.
Antes de sair, confirme por escrito:
como usar cada medicamento e por quanto tempo;
como cuidar do curativo e quando ele pode ser molhado;
quanto peso pode ser colocado na perna operada;
qual apoio utilizar para caminhar;
quais exercícios fazer e quando iniciar a fisioterapia;
quais movimentos exigem cautela no seu caso;
quando será o retorno e como entrar em contato se surgir um problema.
Saiba mais em: Prótese de Quadril: Quanto Tempo de Repouso é Necessário?
Como preparar a casa antes da cirurgia?
Pequenos ajustes reduzem improvisos e podem tornar os primeiros dias mais seguros:
retire tapetes soltos e organize fios e obstáculos nas áreas de passagem;
deixe objetos de uso diário em altura acessível;
planeje quem ajudará com refeições, compras e deslocamentos;
verifique previamente o ajuste do andador ou das muletas;
reserve uma cadeira firme, com braços, se essa for a orientação da equipe;
organize o trajeto até o banheiro e mantenha iluminação adequada;
separe roupas fáceis de vestir e calçados fechados, estáveis e antiderrapantes.
Elevação de assento, almofadas e outras adaptações não são necessárias para todos. A recomendação depende da via cirúrgica, da mobilidade, da altura do paciente e do protocolo adotado.
Fisioterapia e movimentos: todos recebem as mesmas restrições?
Não. A reabilitação deve considerar a técnica cirúrgica, o controle muscular, o equilíbrio, a estabilidade do implante e as necessidades funcionais. Algumas equipes orientam precauções específicas; outras utilizam protocolos menos restritivos em pacientes selecionados. Portanto, listas genéricas como “nunca cruzar as pernas” ou “não dobrar o quadril além de determinado ângulo” não devem substituir a orientação individual.
O objetivo inicial é recuperar uma marcha segura, ativar a musculatura, prevenir perda funcional e aumentar gradualmente a autonomia. Mais exercício não é necessariamente melhor: dor crescente, piora sustentada do inchaço ou perda de função indicam a necessidade de reavaliar a progressão.
Saiba mais em: Fisioterapia Após Prótese de Quadril: Quando Começar?
Saiba mais em: Quais Movimentos Evitar Após a Prótese de Quadril?
O que é esperado na recuperação?
A melhora não ocorre em linha reta. É comum haver dias melhores e piores, especialmente quando a atividade aumenta. Dor incisional, hematoma e inchaço podem ocorrer no início e tendem a diminuir progressivamente. Força, resistência, confiança para caminhar e percepção do resultado continuam evoluindo por semanas ou meses.
Muitos pacientes obtêm redução expressiva da dor e ganho de qualidade de vida, mas o resultado depende do diagnóstico, do estado muscular, das doenças associadas, de cirurgias anteriores e da reabilitação. Expectativas bem alinhadas ajudam a avaliar a evolução sem transformar prazos médios em promessas.
Quais sinais exigem contato com a equipe?
Procure orientação médica se ocorrer:
secreção na ferida, abertura dos pontos, vermelhidão ou calor local em progressão;
febre persistente ou calafrios, especialmente quando associados a alteração da ferida;
dor que piora de forma importante em vez de melhorar;
inchaço acentuado e assimétrico na panturrilha;
falta de ar, dor no peito, desmaio ou palpitações — situações que exigem atendimento de urgência;
estalo acompanhado de deformidade, encurtamento da perna ou incapacidade súbita de apoiar;
efeitos adversos relevantes dos medicamentos.
Saiba mais em: Infecção de Prótese de Quadril: Quais São os Sinais?
Perguntas importantes para levar à consulta
Por que a prótese foi indicada no meu caso e quais são as alternativas?
Qual tipo de prótese e fixação estão sendo considerados?
Quais riscos são mais relevantes para o meu perfil?
Como devo ajustar meus medicamentos e meu jejum?
Quando poderei apoiar a perna e qual auxílio usarei?
Quais movimentos exigirão cuidado no meu caso?
Quando começará a fisioterapia e quais metas serão acompanhadas?
Como será feita a prevenção de trombose e de infecção?
Quem devo contatar fora do horário habitual se surgir um sinal de alerta?
Informação e planejamento fazem parte do tratamento
Saber o que esperar da prótese de quadril não elimina todos os imprevistos, mas permite participar das decisões e organizar a recuperação. O melhor plano é aquele que combina indicação correta, técnica adequada, controle dos riscos, reabilitação progressiva e comunicação clara entre paciente, família e equipe.
Referências científicas
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