Prótese Cimentada ou Não Cimentada: Qual a Diferença?

Você sabe qual a diferença entre prótese de quadril cimentada e não cimentada? Veja como cada técnica funciona, suas indicações, vantagens e quando são mais recomendadas.

Dr. Gabriel Benevides

5/27/202510 min read

Prótese cimentada ou não cimentada: qual é a diferença? A resposta curta é que ambas podem oferecer excelentes resultados. O que muda é a forma como os componentes ficam fixados ao osso. Na fixação cimentada, utiliza-se cimento ósseo para estabilizar o implante imediatamente. Na não cimentada, o componente é encaixado sob pressão e possui uma superfície preparada para que o osso cresça sobre ela.

A escolha não deve ser feita apenas pela idade nem pela ideia de que uma técnica é “mais moderna” que a outra. Qualidade óssea, anatomia do fêmur e do acetábulo, diagnóstico, risco de fratura, doenças associadas, desenho do implante e experiência da equipe precisam ser analisados em conjunto.

O que significa fixação da prótese de quadril?

Na artroplastia total do quadril, o cirurgião substitui a cabeça do fêmur e a superfície articular do acetábulo. A fixação descreve como a haste femoral e o componente acetabular permanecem estáveis no osso. Essa questão é diferente dos materiais que formam a superfície de contato, como cerâmica e polietileno.

O componente femoral e o acetabular podem ter métodos de fixação diferentes. Por isso, dizer apenas que uma prótese é “cimentada” ou “não cimentada” pode ser uma simplificação. É importante saber a qual componente a pessoa está se referindo.

Saiba mais em: Tipos de Prótese de Quadril: Materiais e Componentes

Como funciona a prótese cimentada?

A prótese cimentada utiliza polimetilmetacrilato, conhecido pela sigla PMMA. O cimento ósseo não funciona exatamente como uma cola. Ele ocupa o espaço entre o implante e o osso, adapta-se às irregularidades da superfície e endurece em poucos minutos, formando uma interface mecânica estável.

A estabilidade é obtida durante a cirurgia e depende da preparação do canal ósseo, da técnica de cimentação, do desenho da haste e da qualidade do manto de cimento. Uma cimentação bem executada permite que o implante distribua as cargas ao osso de forma previsível.

Possíveis vantagens da fixação cimentada

  • Fixação imediata: não depende de o osso crescer para dentro da superfície do componente.

  • Menor dependência da densidade óssea: pode ser especialmente útil quando o osso é mais frágil ou o canal femoral é amplo.

  • Menor risco de algumas fraturas ao redor da haste: estudos de registros mostram benefício particularmente relevante em pacientes idosos e em mulheres com maior risco de fragilidade óssea.

  • Longo histórico de acompanhamento: existem hastes cimentadas com resultados documentados por várias décadas.

Limitações e riscos da fixação cimentada

A técnica exige etapas adicionais e atenção rigorosa durante a introdução do cimento. Pode ocorrer alteração transitória da pressão arterial ou da oxigenação durante a cimentação, fenômeno relacionado à síndrome de implantação do cimento ósseo. Quadros graves são incomuns, mas exigem reconhecimento de pacientes de maior risco, comunicação entre cirurgião e anestesiologista e técnica preventiva adequada.

Com o passar dos anos, uma prótese cimentada também pode apresentar desgaste, perda de fixação ou fratura ao redor do implante. Isso não significa que o cimento “venceu” ou “se dissolveu”: a análise precisa considerar o desenho da haste, a qualidade da cimentação, o desgaste da superfície de contato e as forças recebidas pela prótese.

Como funciona a prótese não cimentada?

Na prótese não cimentada, também chamada de cimentless ou press-fit, o componente é inserido com estabilidade mecânica inicial. Sua superfície porosa ou revestida favorece a osteointegração, processo no qual o tecido ósseo cresce e se conecta ao implante.

Para que isso ocorra, o componente deve apresentar encaixe inicial adequado e micromovimento limitado. A geometria do implante, a preparação do osso e a qualidade óssea influenciam diretamente essa estabilidade.

Possíveis vantagens da fixação não cimentada

  • Fixação biológica: depois da osteointegração, o implante passa a funcionar integrado ao osso.

  • Resultados duradouros em pacientes bem selecionados: hastes e componentes acetabulares modernos apresentam bom desempenho, especialmente em pessoas com osso capaz de fornecer estabilidade inicial.

  • Variedade de desenhos e superfícies: permite adequar o componente a diferentes anatomias, embora essa variedade também exija conhecimento do desempenho específico de cada modelo.

Limitações e riscos da fixação não cimentada

A introdução sob pressão pode produzir fissura ou fratura do fêmur durante ou depois da cirurgia. Esse risco merece atenção em pessoas com osso frágil, canal femoral largo e cortical fina. Registros de artroplastia encontraram maior frequência de fratura periprotética com hastes não cimentadas em grupos idosos, especialmente entre mulheres.

Se a estabilidade inicial for insuficiente, pode ocorrer migração da haste ou falha da osteointegração. Algumas pessoas também apresentam dor na coxa no período inicial, embora ela não aconteça em todos os casos e frequentemente melhore com a evolução.

O que são próteses híbridas e híbridas reversas?

Prótese híbrida é, em geral, a combinação de uma haste femoral cimentada com um componente acetabular não cimentado. Essa configuração busca unir a estabilidade previsível da haste cimentada à fixação biológica do componente acetabular.

Prótese híbrida reversa utiliza uma haste femoral não cimentada e um componente acetabular cimentado. É uma combinação menos frequente e indicada em situações específicas.

O texto anterior deste artigo apresentava esses conceitos de forma invertida. A nomenclatura correta é importante porque o desempenho do lado femoral e do lado acetabular deve ser analisado separadamente.

Prótese cimentada ou não cimentada: principais diferenças

Mecanismo de estabilidade

A cimentada obtém fixação imediata por meio do manto de PMMA. A não cimentada precisa de um bom encaixe inicial e, depois, da osteointegração. Isso não significa que a pessoa com prótese não cimentada obrigatoriamente precise permanecer sem apoiar a perna até o osso crescer.

Dependência da qualidade óssea

A haste não cimentada depende mais da capacidade do fêmur de suportar a inserção sob pressão e manter estabilidade. A cimentada tende a ser menos dependente da densidade óssea, embora a anatomia, o desenho do componente e a técnica continuem fundamentais.

Risco de fratura periprotética

Em pacientes idosos, grandes estudos de registros associaram hastes não cimentadas a maior risco de fratura do fêmur ao redor do implante. Esse resultado não permite afirmar que toda prótese não cimentada seja perigosa: modelos com colar, diferentes geometrias e seleção criteriosa podem modificar o risco. Ainda assim, a fragilidade óssea precisa receber peso real na decisão.

Tempo de cirurgia e riscos específicos

A cimentação acrescenta etapas ao procedimento e apresenta riscos cardiopulmonares específicos, sobretudo em pessoas muito frágeis. A fixação não cimentada evita o uso de PMMA, mas transfere parte do risco para a interface mecânica entre o implante e um osso que pode fraturar. A escolha é um balanço de riscos, não uma competição entre uma técnica “segura” e outra “arriscada”.

Durabilidade

Não existe base científica para dizer que toda prótese não cimentada dura mais. Há implantes cimentados, não cimentados e híbridos com excelentes resultados de longo prazo, assim como há modelos de cada categoria com desempenho inferior. Idade, diagnóstico, posicionamento, superfície de contato e desenho específico do implante são tão importantes quanto o método de fixação.

Saiba mais em: Quanto Tempo Dura uma Prótese de Quadril?

Quem costuma receber prótese não cimentada?

A fixação não cimentada é frequentemente utilizada em adultos jovens ou de meia-idade, especialmente quando o osso apresenta boa qualidade e a anatomia permite obter estabilidade inicial. Ela também pode ser apropriada em pessoas mais velhas cuidadosamente selecionadas.

A idade cronológica não determina sozinha a técnica. Uma pessoa de 70 anos pode ter osso adequado para determinado implante não cimentado, enquanto um paciente mais jovem pode apresentar osteoporose, deformidade ou outra condição que favoreça a cimentação.

Quem pode se beneficiar de uma haste cimentada?

A haste cimentada ganha importância quando há baixa qualidade óssea, canal femoral amplo, cortical fina ou maior risco de fratura durante a inserção. Mulheres idosas, pessoas com osteoporose e alguns pacientes submetidos à artroplastia por fratura do colo do fêmur estão entre os grupos em que a opção merece consideração especial.

Em pessoas com 65 anos ou mais, análise do American Joint Replacement Registry encontrou risco significativamente maior de fratura periprotética com hastes não cimentadas. No Norwegian Arthroplasty Register, a diferença também foi particularmente importante em mulheres acima de 55 anos. Como são estudos observacionais, eles não substituem a avaliação individual, mas ajudam a identificar perfis de risco.

Saiba mais em: Prótese de Quadril em Idosos: Indicações e Cuidados

E quando a cirurgia é por fratura do colo do fêmur?

A evidência para fraturas em pessoas idosas é mais favorável à fixação cimentada do que a evidência para artroplastia eletiva por artrose. A diretriz da American Academy of Orthopaedic Surgeons apresenta forte recomendação a favor de hastes cimentadas em pacientes submetidos à artroplastia por fratura do colo do fêmur. A diretriz britânica NICE também recomenda implantes cimentados nesse cenário.

Isso ocorre porque o osso fragilizado da pessoa idosa pode não oferecer a mesma estabilidade para uma haste press-fit e apresenta maior risco de fratura. Mesmo assim, condições cardiopulmonares, desenho do implante e experiência da equipe continuam sendo considerados.

Saiba mais em: Fratura do Colo do Fêmur em Idosos: Tratamento e Recuperação

É necessário fazer densitometria antes da prótese?

Nem todo paciente precisa de densitometria apenas para escolher a fixação. O cirurgião avalia idade, histórico de fraturas, radiografias, espessura cortical, formato do canal femoral e fatores clínicos de osteoporose. Em pessoas com risco aumentado, a densitometria e a avaliação da saúde óssea podem ser indicadas.

O reconhecimento de osteoporose é importante não apenas para a escolha da haste. A fragilidade óssea também influencia prevenção de quedas, risco de fraturas futuras e acompanhamento clínico depois da cirurgia.

A recuperação muda conforme a fixação?

Nem sempre. Tanto próteses cimentadas quanto não cimentadas podem permitir mobilização precoce e apoio conforme tolerado quando a estabilidade é adequada. A liberação de carga depende do que foi encontrado durante a cirurgia, da presença de fissura ou enxerto, da qualidade óssea e do protocolo do cirurgião.

Portanto, não é correto concluir que toda prótese cimentada permite caminhar imediatamente ou que toda não cimentada exige semanas sem apoiar. O tipo de fixação é apenas uma das variáveis do plano de recuperação.

Saiba mais em: Prótese de Quadril: Quando é Indicada e Como é a Recuperação

Mitos frequentes sobre prótese cimentada e não cimentada

“Cimento ósseo é cola e pode descolar facilmente”

O PMMA funciona como material de preenchimento e distribuição de carga, não como cola doméstica. A longevidade depende da técnica, do desenho da haste, do posicionamento e do comportamento mecânico do conjunto.

“Prótese não cimentada sempre dura mais”

Não. Resultados variam conforme idade, qualidade óssea e modelo específico. Em pacientes jovens, determinadas combinações híbridas e não cimentadas têm ótimo desempenho. Em idosos, uma haste cimentada pode reduzir complicações sem comprometer a durabilidade.

“Prótese cimentada é apenas para pessoas muito idosas”

Também não. A idade ajuda a estimar o risco, mas não substitui a análise do osso e da anatomia. Existem situações em que uma haste cimentada é adequada para pessoas mais jovens e situações em que uma não cimentada é razoável para pessoas mais velhas.

“Componente não cimentado não pode receber carga no início”

Muitas próteses não cimentadas permitem apoio precoce. Restrições adicionais são determinadas pela estabilidade obtida, por fraturas, enxertos ou outras particularidades da cirurgia.

Como o cirurgião decide?

A decisão costuma combinar:

  • diagnóstico que levou à artroplastia;

  • idade biológica e nível de atividade;

  • qualidade e formato do osso;

  • sexo e fatores de risco para fratura;

  • cirurgias anteriores e deformidades;

  • doenças cardiopulmonares e risco anestésico;

  • desempenho documentado do implante;

  • experiência da equipe com a técnica.

Em alguns casos, o planejamento pode mudar durante a operação se a qualidade óssea for diferente da prevista ou se a estabilidade inicial não for satisfatória. Ter opções de implante disponíveis faz parte de uma estratégia segura.

Saiba mais em: Como é Feita a Cirurgia de Prótese de Quadril?

Qual é a melhor prótese para cada paciente?

A melhor fixação é aquela que oferece estabilidade adequada com o menor risco possível para aquele paciente. Em osso jovem e resistente, uma solução não cimentada pode ser muito apropriada. Em osso frágil, especialmente no fêmur, a cimentação pode proporcionar fixação mais previsível e reduzir o risco de fratura. Configurações híbridas permitem combinar vantagens dos dois métodos.

Mais importante do que escolher entre dois rótulos é discutir qual componente será usado, qual evidência sustenta seu emprego, por que ele se adapta ao osso do paciente e quais cuidados serão necessários.

Referências científicas

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