Tipos de Prótese de Quadril: Materiais e Componentes

Na cirurgia de prótese de quadril, os materiais utilizados influenciam na durabilidade e possíveis complicações. Veja quais são os principais tipos de componentes protéticos e suas combinações.

Dr. Gabriel Benevides

5/8/202412 min read

Os tipos de prótese de quadril não se diferenciam apenas pelo “material”. Uma prótese é um sistema formado por componentes que substituem partes específicas da articulação e trabalham em conjunto. Haste, cabeça femoral, cúpula acetabular e revestimento interno podem ter desenhos, materiais e formas de fixação diferentes.

Na prática, a pergunta mais útil não é simplesmente “qual é a melhor prótese de quadril?”, mas sim qual combinação de componentes oferece melhor equilíbrio entre estabilidade, desgaste, fixação e segurança para aquele paciente. Idade, qualidade óssea, anatomia, diagnóstico, nível de atividade e risco de luxação influenciam essa decisão.

Neste artigo, você vai entender os principais tipos de prótese de quadril, seus materiais e componentes, além das diferenças entre cerâmica, polietileno e metal. Indicação, técnica cirúrgica, recuperação e durabilidade serão mencionadas apenas quando necessárias, pois cada um desses assuntos possui um conteúdo próprio.

Índice

  • Quais são os principais tipos de prótese de quadril?

  • Como é composta uma prótese total de quadril?

  • Qual é a diferença entre material estrutural e superfície de contato?

  • Quais materiais são utilizados nos componentes?

  • Cerâmica, polietileno ou metal: quais são as combinações?

  • O que é uma prótese de dupla mobilidade?

  • Como o cirurgião escolhe a prótese?

  • Perguntas frequentes

Quais são os principais tipos de prótese de quadril?

Quando se fala em “tipo de prótese”, é possível estar se referindo tanto à extensão da articulação substituída quanto ao desenho do implante. Os três conceitos principais são:

Prótese total de quadril

Na artroplastia total do quadril, são substituídos os dois lados da articulação: a cabeça do fêmur e a superfície interna do acetábulo, que é a cavidade da bacia onde o fêmur se encaixa. É o sistema mais conhecido quando se fala em cirurgia de prótese de quadril.

A prótese total geralmente inclui uma haste femoral, uma cabeça protética, uma cúpula acetabular e um revestimento interno chamado liner. Esses componentes podem ser combinados de diferentes maneiras.

Prótese parcial do quadril

Na hemiartroplastia, apenas o lado femoral é substituído. O acetábulo natural é preservado. Esse tipo de prótese é utilizado principalmente em situações selecionadas, como algumas fraturas do colo do fêmur, considerando idade, mobilidade prévia, condições clínicas e características da fratura.

Ela pode ser unipolar ou bipolar. Na bipolar, existe uma articulação adicional dentro do próprio componente femoral. Isso não significa que ela seja automaticamente superior: a indicação depende do caso.

Recapeamento do quadril

No recapeamento, a cabeça femoral não é removida por completo; ela é revestida por uma capa metálica, enquanto o acetábulo recebe um componente correspondente. A técnica preserva mais osso femoral, porém utiliza uma superfície metal-metal e apresenta indicações bastante restritas.

Por causa das preocupações relacionadas à liberação de partículas e íons metálicos, o recapeamento não é uma alternativa de rotina para a maioria dos pacientes. A seleção precisa ser criteriosa e realizada por cirurgião familiarizado com o método.

Saiba mais em: Prótese de Quadril: Quando é Indicada e Como é a Recuperação

Como é composta uma prótese total de quadril?

A prótese total de quadril é modular na maioria dos sistemas atuais. Isso permite que o cirurgião selecione tamanhos e combinações compatíveis com a anatomia e com as necessidades do paciente.

Haste femoral

A haste é introduzida no canal do fêmur. Ela serve de base para o componente que substituirá a cabeça femoral. Pode ser fixada com cimento ósseo ou por encaixe e integração ao osso. Titânio e ligas de cobalto-cromo estão entre os materiais utilizados, conforme o desenho e o modo de fixação.

Colo modular e cabeça femoral

A cabeça protética é a esfera que se movimenta dentro do acetábulo. Pode ser fabricada em cerâmica ou liga metálica. Seu diâmetro influencia a amplitude de movimento, a estabilidade e a espessura disponível para o revestimento acetabular.

Cabeças maiores podem aumentar a distância necessária para a luxação, mas não são escolhidas isoladamente: dimensões excessivas ou uma espessura inadequada do liner podem criar outras limitações. O planejamento precisa considerar o sistema completo.

Cúpula acetabular

A cúpula, também chamada de shell ou componente acetabular, é posicionada na bacia. Nas próteses não cimentadas, costuma ser metálica e pode apresentar superfície porosa para favorecer o crescimento do osso. Alguns modelos permitem o uso de parafusos auxiliares quando necessário.

Revestimento acetabular ou liner

O liner é encaixado dentro da cúpula e forma uma das superfícies de contato da articulação. Na maioria das próteses atuais, ele é feito de polietileno altamente reticulado; em sistemas específicos, pode ser de cerâmica.

Material estrutural e superfície de contato são a mesma coisa?

Não. Essa distinção ajuda a compreender os materiais da prótese de quadril.

  • Materiais estruturais dão sustentação e permitem a fixação do implante ao osso. É o caso de grande parte das hastes e cúpulas metálicas.

  • Superfícies de contato, também chamadas de par de atrito, são as partes que deslizam uma contra a outra durante o movimento. Exemplos: cerâmica-polietileno, metal-polietileno e cerâmica-cerâmica.

Assim, uma prótese com cabeça de cerâmica não é necessariamente uma “prótese sem metal”. A haste e a cúpula podem continuar sendo metálicas; a cerâmica está na superfície que articula com o liner.

Quais materiais são utilizados nos componentes da prótese?

Ligas de titânio

O titânio é muito utilizado em hastes e cúpulas não cimentadas. Apresenta boa biocompatibilidade, resistência mecânica e módulo de elasticidade mais próximo ao do osso do que algumas outras ligas metálicas. Superfícies porosas e revestimentos especiais podem favorecer a osteointegração.

O termo “rejeição” não descreve adequadamente o que ocorre com uma prótese ortopédica, porque ela não é um órgão transplantado. Reações a detritos, infecção, falha de fixação e hipersensibilidade são fenômenos diferentes e precisam ser avaliados separadamente.

Ligas de cobalto-cromo e aço inoxidável

As ligas de cobalto-cromo são resistentes e podem ser usadas em cabeças femorais e em determinadas hastes. O aço inoxidável também está presente em alguns sistemas, especialmente em componentes cimentados. A escolha depende do projeto do implante e do histórico clínico daquele conjunto, não apenas do nome do metal.

Cerâmica

As cerâmicas modernas, como alumina e matrizes cerâmicas reforçadas, têm superfície muito lisa, elevada dureza e baixo desgaste. São utilizadas em cabeças femorais e, nas combinações cerâmica-cerâmica, também no liner.

A fratura de componentes cerâmicos tornou-se rara com materiais e desenhos modernos, mas não é impossível. Em pares cerâmica-cerâmica também pode ocorrer ruído, conhecido como squeaking. Esses eventos devem ser discutidos sem transformar riscos incomuns em regra.

Polietileno altamente reticulado

O polietileno é o material mais utilizado no revestimento acetabular. As versões atuais, chamadas de polietileno altamente reticulado ou HXLPE, foram desenvolvidas para reduzir o desgaste em comparação com polietilenos convencionais mais antigos.

Revisões sistemáticas de seguimento prolongado mostram baixas taxas de desgaste, osteólise e revisão com HXLPE. Em pacientes com menos de 50 anos, uma meta-análise publicada em 2025 encontrou sobrevida livre de revisão agrupada de 98% em seguimento médio de aproximadamente 14 anos. Esses resultados são muito favoráveis, embora não garantam o mesmo desempenho para todo paciente.

Metais porosos, incluindo tântalo

Metais altamente porosos podem ser usados em componentes acetabulares e aumentos especiais, sobretudo quando há perda óssea ou necessidade de reconstrução complexa. O tântalo poroso é um exemplo. Não se trata de uma escolha necessária em todas as cirurgias primárias.

Cerâmica, polietileno ou metal: quais são as principais combinações?

Cerâmica sobre polietileno altamente reticulado

Combina uma cabeça de cerâmica com liner de HXLPE. É uma opção amplamente utilizada porque associa baixo desgaste a um histórico clínico favorável. Em uma análise de mais de um milhão de próteses do National Joint Registry, algumas combinações de cabeça cerâmica ou zircônia oxidada com HXLPE apresentaram menor risco ajustado de revisão do que cabeça de cobalto-cromo com HXLPE.

Esse resultado é relevante, mas vem de estudo observacional. Características dos pacientes, modelos de implante e decisões dos cirurgiões podem influenciar a comparação. Portanto, ele não deve ser interpretado como prova de que toda cabeça cerâmica é superior em qualquer cenário.

Metal sobre polietileno altamente reticulado

Utiliza cabeça metálica, geralmente de cobalto-cromo, articulando com HXLPE. É uma combinação consagrada, com ampla experiência clínica e resultados satisfatórios. Pode ser adequada para muitos pacientes quando utilizada em um sistema bem documentado e corretamente posicionado.

A presença de metal exige atenção em situações específicas, como histórico convincente de hipersensibilidade ou determinadas condições relacionadas a corrosão. Esses problemas são incomuns e não devem ser presumidos apenas porque o paciente refere alergia cutânea a bijuterias.

Cerâmica sobre cerâmica

Nesse par de atrito, tanto a cabeça quanto o liner são cerâmicos. O desgaste é muito baixo, o que pode ser atraente em pacientes selecionados. Entretanto, estudos comparativos não demonstram vantagem universal em revisão ou complicações em relação às combinações modernas de cerâmica com HXLPE.

A possibilidade rara de fratura e a ocorrência de ruído articular também entram na decisão. A escolha exige compatibilidade entre os componentes e posicionamento preciso.

Metal sobre metal

A combinação metal-metal foi muito utilizada no passado, especialmente em cabeças de grande diâmetro e recapeamentos. Atualmente, não é uma escolha rotineira na artroplastia total do quadril.

O atrito pode liberar partículas e íons de cobalto e cromo. Em alguns pacientes, isso se relaciona a reação adversa nos tecidos ao redor do quadril, dor, lesão muscular, osteólise e necessidade de revisão. Por esse motivo, órgãos reguladores mantêm recomendações específicas para acompanhamento de pacientes que já possuem esses implantes.

O que é uma prótese de dupla mobilidade?

A dupla mobilidade é um desenho de prótese, e não apenas um material. A cabeça protética articula dentro de uma peça móvel de polietileno, que também se movimenta dentro da cúpula metálica. Existem, portanto, duas interfaces de movimento.

Esse desenho aumenta o diâmetro funcional da articulação e pode reduzir o risco de luxação em pacientes selecionados. Uma meta-análise de estudos de artroplastia primária encontrou menor risco de luxação com dupla mobilidade em comparação com componentes convencionais de superfície fixa, mas a maior parte da evidência era observacional e apresentava heterogeneidade.

A dupla mobilidade pode ser considerada em situações de maior risco de instabilidade, como alterações neuromusculares, algumas deformidades, fraturas, revisões ou cirurgias da coluna associadas. Ela também possui riscos próprios, incluindo desgaste e luxação intraprotética, hoje menos frequente nos desenhos modernos. Não é obrigatoriamente a melhor opção para todos.

Saiba mais em: Luxação da Prótese de Quadril: Sintomas, Causas e Prevenção

O que são liners constritos?

Os liners constritos, ou constrained liners, possuem um mecanismo que retém a cabeça dentro do componente acetabular. São reservados principalmente para casos complexos de instabilidade, deficiência muscular ou cirurgias de revisão.

Como transferem forças maiores para a interface entre prótese e osso, não devem ser confundidos com uma solução preventiva universal. A indicação costuma ocorrer quando outras estratégias de estabilidade são insuficientes.

Prótese cimentada ou não cimentada: o material define a fixação?

Não. O material e a forma de fixação são decisões relacionadas, mas distintas.

  • Fixação cimentada: utiliza cimento ósseo, geralmente polimetilmetacrilato, para estabilizar o componente. O cimento funciona como material de interposição; ele não é uma “cola” biológica.

  • Fixação não cimentada: depende de estabilidade inicial por encaixe e, posteriormente, de integração do osso à superfície porosa do implante.

  • Fixação híbrida: combina, por exemplo, uma haste cimentada com um componente acetabular não cimentado.

Qualidade óssea, idade, anatomia, diagnóstico, risco de fratura e experiência do cirurgião influenciam a decisão. Este artigo não aprofunda o tema para não competir com o conteúdo específico sobre fixação.

Saiba mais em: Prótese Cimentada ou Não Cimentada: Qual a Diferença?

Como o cirurgião escolhe os componentes da prótese de quadril?

Não existe um único conjunto ideal para todos. A escolha costuma considerar:

  • idade e expectativa funcional;

  • qualidade e formato do osso;

  • diagnóstico que levou à cirurgia;

  • nível de atividade e peso corporal;

  • risco individual de luxação;

  • cirurgias anteriores no quadril ou na coluna;

  • histórico de alergias ou reações a metais, quando clinicamente relevante;

  • compatibilidade entre cabeça, liner, cúpula e haste;

  • resultados publicados e desempenho do modelo em registros de artroplastia;

  • familiaridade da equipe com o sistema escolhido.

O planejamento também envolve tamanho, posição e orientação dos componentes. Uma prótese de excelente procedência pode ter desempenho inadequado se a seleção ou o posicionamento não forem apropriados. Da mesma forma, materiais modernos não eliminam riscos como infecção, fratura, trombose, luxação ou soltura.

Saiba mais em: Como é Feita a Cirurgia de Prótese de Quadril?

Qual material de prótese de quadril dura mais?

A durabilidade não depende de um único material. Ela resulta da interação entre desenho do implante, superfície de contato, fixação, posicionamento, qualidade óssea, nível de atividade, peso corporal, ocorrência de infecção e acompanhamento ao longo do tempo.

Cerâmica e HXLPE apresentam excelentes resultados modernos. No entanto, não é correto prometer um número exato de anos nem escolher um implante apenas com base em uma suposta “vida útil”. Registros de artroplastia e estudos de longo prazo são mais úteis do que slogans comerciais.

Saiba mais em: Quanto Tempo Dura uma Prótese de Quadril?

Perguntas frequentes sobre tipos e materiais da prótese de quadril

Cabeça de cerâmica significa que a prótese inteira é de cerâmica?

Não. Em geral, apenas a cabeça femoral é cerâmica. A haste e a cúpula acetabular normalmente continuam sendo metálicas, e o liner pode ser de polietileno ou cerâmica.

O titânio é sempre melhor do que o cobalto-cromo?

Não. Cada liga possui propriedades adequadas a determinadas funções. O titânio é comum em componentes destinados à integração óssea; o cobalto-cromo oferece elevada resistência e continua presente em sistemas com bons resultados. É necessário avaliar o componente e seu uso, não apenas comparar nomes de metais.

A prótese de cerâmica pode quebrar?

Pode, mas a fratura é rara nos componentes cerâmicos modernos. Compatibilidade do sistema, técnica de montagem, posicionamento e eventos traumáticos influenciam o risco. O benefício de baixo desgaste deve ser ponderado com essas particularidades.

Alergia a bijuteria impede o uso de prótese metálica?

Na maioria das vezes, não. Alergia cutânea não equivale automaticamente a reação profunda ao implante. Quando há histórico importante, dermatite intensa ou falha prévia possivelmente relacionada a metal, a investigação pode ser individualizada. Testes isolados não predizem perfeitamente o comportamento de uma prótese.

Dupla mobilidade é melhor para todo paciente?

Não. Ela é especialmente útil quando o risco de instabilidade é maior, mas possui indicações e riscos próprios. Para muitos pacientes, uma superfície fixa moderna oferece excelente estabilidade quando os componentes são bem selecionados e posicionados.

O paciente pode escolher o material?

O paciente deve participar da decisão e compreender as alternativas. Entretanto, a escolha final precisa respeitar critérios médicos, compatibilidade entre componentes, evidências disponíveis e características anatômicas encontradas no planejamento e na cirurgia.

Conclusão

Os tipos de prótese de quadril resultam da combinação entre desenho, componentes, materiais, superfície de contato e forma de fixação. Titânio, cobalto-cromo, cerâmica e polietileno altamente reticulado têm funções diferentes dentro do sistema.

Nas artroplastias atuais, cerâmica-polietileno e metal-polietileno apresentam ampla utilização, enquanto cerâmica-cerâmica pode ser apropriada em casos selecionados. A superfície metal-metal deixou de ser opção rotineira por causa dos riscos relacionados a partículas e íons metálicos. A dupla mobilidade, por sua vez, é um desenho voltado sobretudo ao aumento da estabilidade.

Mais importante do que procurar uma marca ou material isolado é realizar avaliação individualizada e utilizar um conjunto com desempenho documentado, corretamente indicado, compatível e bem posicionado.

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