Fratura do Colo do Fêmur em Idosos: Tratamento e Recuperação
Entenda como é tratada a fratura do colo do fêmur em idosos, quando usar parafusos ou prótese e o que esperar da recuperação.
Dr. Gabriel Benevides
7/31/202611 min read


A fratura do colo do fêmur em idosos é uma lesão grave que geralmente precisa de tratamento cirúrgico. Ela ocorre na região que liga a cabeça do fêmur ao restante do osso e pode comprometer tanto a sustentação do membro quanto a circulação sanguínea da cabeça femoral.
Na maioria das vezes, a fratura acontece após uma queda da própria altura em uma pessoa com fragilidade óssea. O tratamento não depende apenas da idade: o desvio da fratura, a qualidade do osso, a capacidade de caminhar antes da queda, o estado cognitivo, as doenças associadas e o grau de independência ajudam a definir se serão usados parafusos, uma hemiartroplastia ou uma prótese total.
A recuperação também é individual. A cirurgia é uma etapa importante, mas mobilização precoce, controle clínico, fisioterapia, nutrição, prevenção de novas quedas e investigação da saúde óssea fazem parte do mesmo tratamento.
Índice
Onde fica o colo do fêmur?
Por que essa fratura é comum em idosos?
Quais são os sintomas?
Como é feito o diagnóstico?
A fratura do colo do fêmur é uma urgência?
Como o desvio da fratura influencia o tratamento?
Quando podem ser usados parafusos?
Quando é indicada hemiartroplastia?
Quando pode ser indicada prótese total?
Como é a recuperação após a cirurgia?
Como prevenir outra fratura?
Sinais de alerta durante a recuperação
Onde fica o colo do fêmur?
O fêmur é o osso da coxa. Em sua extremidade superior existe uma cabeça arredondada que se articula com o acetábulo, formando o quadril. O colo do fêmur é a região mais estreita localizada entre essa cabeça e a parte mais larga do fêmur, onde ficam os trocânteres.
As fraturas do colo são chamadas de intracapsulares porque ocorrem dentro da cápsula da articulação. Essa localização é importante: vasos que nutrem a cabeça femoral percorrem a região e podem ser lesados quando a fratura se desloca.
Por esse motivo, uma fratura desviada pode apresentar dificuldade de consolidação e risco de osteonecrose. Isso ajuda a explicar por que, em muitos idosos, substituir a parte fraturada é mais previsível do que tentar fazê-la consolidar.
Por que a fratura do colo do fêmur é comum em idosos?
A combinação entre fragilidade óssea e risco de queda torna essa lesão mais frequente com o envelhecimento. A osteoporose reduz a resistência do osso, de modo que um trauma aparentemente leve pode produzir uma fratura importante.
Outros fatores podem contribuir:
perda de força muscular e equilíbrio;
alterações da visão;
tontura ou queda da pressão ao levantar;
medicamentos que provocam sonolência ou instabilidade;
doenças neurológicas;
obstáculos, tapetes e iluminação inadequada em casa;
deficiência nutricional e baixo peso;
fratura por fragilidade anterior.
Em alguns casos, o osso pode estar tão fragilizado que a fratura ocorre durante um movimento habitual e provoca a queda, em vez de ser apenas consequência dela.
Quais são os sintomas da fratura do colo do fêmur?
O quadro mais comum é dor intensa na virilha ou na região do quadril após uma queda, acompanhada de dificuldade ou impossibilidade para ficar em pé e apoiar o membro.
Quando a fratura está desviada, a perna pode parecer encurtada e rodada para fora. Movimentar o quadril ou tentar elevar o calcanhar da cama costuma aumentar a dor.
Entretanto, nem toda fratura apresenta deformidade evidente. Em fraturas impactadas ou sem desvio, a pessoa pode conseguir dar alguns passos, embora com dor. Persistência de dor na virilha após uma queda em um idoso deve ser avaliada mesmo quando ainda existe alguma capacidade de caminhar.
O que fazer quando houver suspeita de fratura?
A pessoa não deve ser estimulada a caminhar para “testar” o quadril. O mais seguro é mantê-la confortável, evitar movimentações desnecessárias e procurar atendimento de urgência.
É importante informar à equipe como ocorreu a queda, quais medicamentos são utilizados — especialmente anticoagulantes —, as doenças existentes e como a pessoa caminhava e realizava suas atividades anteriormente.
Dor no peito, falta de ar, desmaio, perda súbita de força ou outro sintoma anterior à queda também precisa ser relatado, pois pode indicar que um problema clínico provocou o acidente.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico começa pela história, pelo exame físico e por radiografias da bacia e do quadril. As imagens mostram a localização da fratura e, na maioria dos casos, permitem avaliar se existe desvio.
Uma radiografia aparentemente normal não exclui completamente a lesão. Quando a dor e o exame mantêm forte suspeita, pode ser necessária uma ressonância magnética. A tomografia pode ser utilizada em algumas situações, especialmente quando a ressonância não está disponível ou é contraindicada.
Além da investigação da fratura, a equipe solicita exames para avaliar anemia, função dos rins, eletrólitos, coagulação, coração e condições que possam interferir na anestesia ou na cirurgia.
A fratura do colo do fêmur é uma urgência?
Sim. Trata-se de uma condição que exige internação, controle da dor, avaliação clínica e definição rápida do tratamento. Permanecer imobilizado por muito tempo aumenta o risco de pneumonia, trombose, lesões de pele, perda muscular, confusão mental e perda de independência.
Diretrizes recomendam que a cirurgia seja realizada precocemente, frequentemente dentro de 24 a 48 horas da admissão, quando as condições clínicas permitem. Esse período é usado para corrigir problemas reversíveis importantes, como desidratação, alterações de eletrólitos, anemia relevante, infecção ou descompensação cardíaca.
O objetivo não é operar sem avaliação, mas também não atrasar desnecessariamente o procedimento em busca de uma condição clínica perfeita que talvez não seja alcançável.
Como o desvio da fratura influencia o tratamento?
Uma fratura sem desvio mantém a cabeça femoral relativamente alinhada ao colo. Já na fratura desviada, os fragmentos perderam o alinhamento e a circulação da cabeça femoral pode estar mais comprometida.
Essa diferença modifica a previsibilidade da fixação. Nas fraturas estáveis ou pouco desviadas, preservar a cabeça femoral com parafusos pode ser adequado em pacientes selecionados. Nas fraturas desviadas de idosos, diretrizes recomendam artroplastia em vez de fixação, pois o risco de falha de consolidação e necessidade de uma nova operação é maior.
A classificação radiográfica auxilia a decisão, mas não substitui a avaliação global da qualidade óssea, autonomia anterior, cognição e risco cirúrgico.
Quando a fratura pode ser tratada com parafusos?
A osteossíntese procura manter a cabeça femoral natural e estabilizar a fratura até a consolidação. Podem ser utilizados parafusos paralelos, parafuso deslizante ou outros sistemas específicos para o colo do fêmur.
Em idosos, essa estratégia costuma ser considerada principalmente nas fraturas impactadas ou sem desvio. Também pode ser escolhida quando a condição clínica torna desejável um procedimento mais curto, desde que o padrão da fratura permita estabilização adequada.
A vantagem é preservar a articulação. As limitações incluem perda da fixação, não consolidação, encurtamento do colo e osteonecrose. Se ocorrer falha, pode ser necessária nova cirurgia com conversão para artroplastia.
A autorização para apoiar o peso após a fixação depende da estabilidade obtida, da qualidade óssea e da orientação do cirurgião. Não se deve restringir ou liberar carga por conta própria.
Quando é indicada a prótese parcial de quadril?
Na hemiartroplastia (prótese parcial de quadril), a cabeça e o colo femorais são substituídos por um componente protético, enquanto o acetábulo natural é preservado. É um tratamento frequente para fraturas desviadas em idosos com menor demanda funcional, fragilidade clínica, comprometimento cognitivo ou mobilidade limitada antes da queda.
Ela evita depender da consolidação do colo fraturado e, em geral, permite mobilização precoce. Como não há substituição do acetábulo, o procedimento costuma ser menos extenso do que uma prótese total.
Diretrizes atuais recomendam hastes cimentadas na maioria dos idosos submetidos à artroplastia por fratura do colo do fêmur. A cimentação proporciona fixação imediata em um osso frequentemente osteoporótico e pode reduzir o risco de fratura ao redor da haste. O uso de cimento também possui riscos específicos e exige medidas anestésicas e cirúrgicas de segurança.
Quando pode ser indicada prótese total de quadril?
Na prótese total, são substituídas tanto a cabeça femoral quanto a superfície articular do acetábulo. Ela pode oferecer alguma vantagem funcional em pacientes devidamente selecionados, mas também é uma operação mais extensa e pode apresentar maior risco de algumas complicações.
A prótese total costuma ser considerada quando o idoso:
caminhava de forma independente antes da fratura;
apresenta condição clínica compatível com o procedimento;
possui cognição e expectativa funcional favoráveis;
já tinha artrose sintomática ou outra doença relevante no acetábulo;
tem perspectiva de manter independência após a recuperação.
O grande estudo randomizado HEALTH encontrou apenas pequena diferença funcional entre prótese total e hemiartroplastia, sem demonstrar vantagem clínica importante para todos. Por isso, a seleção precisa ser criteriosa: nem todo idoso ativo necessita de prótese total, e nem toda pessoa de idade avançada deve receber automaticamente uma hemiartroplastia.
Saiba mais em: Prótese de Quadril em Idosos: Indicações e Cuidados
Existe tratamento sem cirurgia?
O tratamento não cirúrgico é reservado a situações excepcionais. Pode ser considerado quando a fratura é estável e a pessoa apresenta condições muito específicas, ou quando o risco e os objetivos gerais de cuidado tornam a operação incompatível com as prioridades do paciente.
Em pessoas com doença terminal ou fragilidade extrema, a decisão pode fazer parte de um plano paliativo centrado no conforto. Ainda assim, a cirurgia às vezes é considerada para facilitar o controle da dor e os cuidados. A decisão deve envolver a equipe, o paciente e a família.
Como é a recuperação após a cirurgia?
A recuperação começa no hospital. Quando não existe contraindicação médica ou cirúrgica, recomenda-se avaliação fisioterapêutica e mobilização até o dia seguinte à operação.
Os primeiros objetivos costumam ser sentar, levantar com ajuda, transferir-se para uma cadeira e iniciar passos com andador. A carga permitida depende do procedimento, mas as artroplastias por fratura geralmente são planejadas para possibilitar apoio precoce. A orientação registrada pela equipe deve ser seguida.
Saiba mais em: Quando Caminhar Após a Cirurgia de Prótese de Quadril?
Controle da dor e prevenção de complicações
O tratamento inclui analgesia, medidas para prevenir trombose, avaliação da ferida, cuidado com anemia, hidratação e acompanhamento de doenças preexistentes. A equipe também observa sinais de infecção, alterações respiratórias, retenção urinária e lesões de pele.
Idosos hospitalizados apresentam risco de delirium, um estado agudo de confusão que pode oscilar ao longo do dia. Dor, infecção, desidratação, privação do sono, imobilidade e alguns medicamentos podem contribuir. Manter óculos e aparelhos auditivos, favorecer orientação e presença familiar e tratar as causas são medidas importantes.
Fisioterapia e terapia ocupacional
A fisioterapia trabalha mobilidade, força, equilíbrio e marcha. A terapia ocupacional ajuda a adaptar banho, vestuário, uso do banheiro e circulação segura em casa.
Saiba mais em: Fisioterapia Após Prótese de Quadril: Quando Começar?
Alta hospitalar
A alta depende da estabilidade clínica, do controle da dor, da capacidade de realizar transferências e pequenos deslocamentos e da existência de apoio adequado. Algumas pessoas retornam para casa com assistência e reabilitação; outras precisam de uma unidade de transição ou reabilitação antes disso.
O ambiente domiciliar deve ser preparado: retirar tapetes soltos, melhorar a iluminação, instalar apoio quando indicado e organizar objetos de uso frequente em locais acessíveis. O andador ou a bengala deve ter altura adequada e ser utilizado conforme orientação profissional.
Quanto tempo leva a recuperação?
Não existe prazo único. Nas primeiras semanas, o foco é controlar a dor, proteger a cirurgia e recuperar transferências e marcha segura. A evolução funcional pode continuar por vários meses.
O resultado depende bastante da condição anterior à fratura. Quem já caminhava pouco, apresentava demência avançada ou tinha doenças clínicas descompensadas costuma enfrentar maior dificuldade. Mesmo idosos previamente independentes podem não retornar exatamente ao nível funcional anterior.
Como a família pode ajudar?
A família pode trazer informações sobre medicamentos, cognição e mobilidade anteriores, participar do planejamento da alta e ajudar a manter o paciente orientado.
Durante a recuperação, é útil:
incentivar os exercícios prescritos sem forçar movimentos;
respeitar o uso do dispositivo de apoio;
acompanhar alimentação, hidratação e medicamentos;
observar alterações de comportamento ou sonolência;
organizar o ambiente para reduzir o risco de nova queda;
acompanhar consultas e levar dúvidas anotadas.
Como prevenir outra fratura?
Uma fratura do quadril após trauma de baixa energia é um forte sinal de fragilidade óssea. Tratar apenas a fratura atual deixa sem resposta o risco de novas lesões.
A prevenção secundária pode incluir:
investigação e tratamento da osteoporose;
avaliação de vitamina D, cálcio e outras alterações conforme o caso;
revisão de medicamentos que aumentem sonolência, tontura ou queda de pressão;
avaliação da visão e da audição;
fortalecimento e treino de equilíbrio;
adequação do ambiente doméstico;
investigação da causa da queda.
O tratamento para osteoporose não deve ser iniciado ou interrompido por conta própria. Função renal, nível de cálcio, saúde odontológica, histórico de outras fraturas e capacidade de seguir o esquema terapêutico influenciam a escolha.
Quais sinais exigem avaliação durante a recuperação?
O paciente deve procurar orientação médica diante de:
piora súbita da dor ou nova incapacidade de apoiar a perna;
queda durante a recuperação;
deformidade ou encurtamento aparente do membro;
febre persistente, vermelhidão progressiva ou secreção na ferida;
inchaço e dor na panturrilha;
falta de ar, dor no peito ou desmaio;
confusão mental nova ou piora importante da sonolência;
perda de apetite e hidratação insuficiente.
Falta de ar, dor no peito e alteração súbita do estado de consciência exigem avaliação de urgência.
Conclusão
A fratura do colo do fêmur em idosos exige tratamento rápido e individualizado. Fraturas sem desvio podem ser estabilizadas com parafusos em pacientes selecionados. Nas fraturas desviadas, a substituição da cabeça femoral por hemiartroplastia ou prótese total costuma oferecer resultado mais previsível.
A prótese total pode beneficiar idosos ativos e independentes cuidadosamente selecionados, enquanto a hemiartroplastia frequentemente é mais adequada para pessoas com menor demanda funcional ou maior fragilidade. Não existe um procedimento definido apenas pela idade.
A recuperação não termina na cirurgia. Mobilização precoce, acompanhamento interdisciplinar, reabilitação, prevenção de delirium, investigação da osteoporose e redução do risco de novas quedas são partes essenciais do cuidado.
Saiba mais em: Prótese de Quadril: Quando é Indicada e Como é a Recuperação
Perguntas frequentes
Todo idoso com fratura do colo do fêmur precisa de prótese?
Não. Fraturas sem desvio podem ser tratadas com fixação em casos selecionados. Nas fraturas desviadas, a artroplastia geralmente é preferida porque reduz a dependência da consolidação do colo fraturado.
Hemiartroplastia e prótese total são a mesma cirurgia?
Não. A hemiartroplastia substitui a cabeça e o colo do fêmur, preservando o acetábulo. A prótese total também substitui a superfície acetabular.
O paciente pode apoiar a perna depois da operação?
Muitas cirurgias por fratura são planejadas para permitir apoio precoce, especialmente as artroplastias. A liberação depende da técnica e da estabilidade obtida e deve ser confirmada pela equipe responsável.
É normal ficar confuso depois da fratura?
O delirium é relativamente frequente em idosos hospitalizados, mas não deve ser considerado apenas parte normal da idade. Confusão nova precisa ser comunicada para que dor, infecção, medicamentos e outras causas sejam avaliados.
É possível recuperar a independência anterior?
É possível, principalmente quando a pessoa era independente e clinicamente estável antes da fratura, mas não há garantia. A recuperação depende da condição prévia, de complicações e da continuidade da reabilitação.
Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui consulta médica, exame físico ou orientação individualizada.
Referências
American Academy of Orthopaedic Surgeons. Management of Hip Fractures in Older Adults: Evidence-Based Clinical Practice Guideline. 2021.
National Institute for Health and Care Excellence. Hip fracture: management. Clinical guideline CG124. Atualizada em 2023.
Bhandari M et al. Total Hip Arthroplasty or Hemiarthroplasty for Hip Fracture. New England Journal of Medicine. 2019.
Lewis DP et al. Hemiarthroplasty versus total hip arthroplasty for the management of displaced neck of femur fractures in the elderly: systematic review and meta-analysis. Journal of Orthopaedic Trauma. 2019.
Van Heghe A et al. Effects of Orthogeriatric Care Models on Outcomes of Hip Fracture Patients: A Systematic Review and Meta-Analysis. Calcified Tissue International. 2022.
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