Fratura por Estresse do Colo do Fêmur: Sintomas e Diagnóstico
Entenda os sintomas da fratura por estresse do colo do fêmur, os sinais de alerta e por que a ressonância pode ser necessária para o diagnóstico.
Dr. Gabriel Benevides
7/17/202610 min read


A fratura por estresse do colo do fêmur é uma lesão óssea causada pelo acúmulo de cargas repetidas ou pela aplicação de cargas habituais sobre um osso fragilizado. Embora seja incomum, merece atenção porque pode progredir para uma fratura completa e com desvio quando não é reconhecida precocemente.
O sintoma mais característico é a dor no quadril ou na virilha relacionada ao exercício, muitas vezes sem queda ou trauma importante. A dor pode começar apenas durante a corrida ou caminhada prolongada e, com a progressão da lesão, aparecer também nas atividades diárias, em repouso ou à noite.
Como a radiografia pode estar normal nas fases iniciais, a persistência da suspeita clínica costuma exigir ressonância magnética. Dor progressiva ao apoiar o peso deve levar à interrupção da atividade e à avaliação médica, especialmente em corredores, militares, pessoas com aumento recente de treinamento ou fatores que prejudiquem a saúde óssea.
Índice
O que é uma fratura por estresse do colo do fêmur?
Qual é a diferença entre fratura por fadiga e por insuficiência?
Quais são os principais sintomas?
Quem apresenta maior risco?
Quando a dor exige avaliação urgente?
Como é feito o diagnóstico?
A radiografia normal exclui a lesão?
Qual é o papel da ressonância magnética?
Quais outras condições podem causar sintomas semelhantes?
O que fazer diante da suspeita?
Perguntas frequentes
O que é uma fratura por estresse do colo do fêmur?
O colo do fêmur é a região que conecta a cabeça do fêmur à parte superior do osso da coxa. Durante a corrida, os saltos e a caminhada, essa área recebe forças repetidas de compressão e tração.
O tecido ósseo se adapta continuamente às cargas. Quando a quantidade ou a frequência do esforço supera a capacidade de recuperação, pequenas lesões podem se acumular. Esse processo é chamado de lesão óssea por estresse. Em seus estágios mais avançados, pode surgir uma linha de fratura.
O colo do fêmur é considerado uma localização de maior risco porque a lesão pode aumentar, completar-se e sofrer desvio. Nessa situação, também cresce o risco de complicações como falha de consolidação e osteonecrose da cabeça femoral. Por isso, o diagnóstico precoce modifica de maneira importante a condução do caso.
Fratura por fadiga e fratura por insuficiência são a mesma coisa?
As duas pertencem ao grupo das fraturas por estresse, mas surgem em contextos diferentes.
Fratura por fadiga
Acontece quando um osso com resistência habitual é submetido a cargas repetidas acima de sua capacidade de adaptação. É o padrão mais associado a corredores de longa distância, militares em treinamento e pessoas que aumentaram rapidamente o volume ou a intensidade dos exercícios.
Fratura por insuficiência
Ocorre quando uma carga habitual atua sobre um osso com resistência reduzida. Osteoporose, alterações metabólicas, uso prolongado de determinados medicamentos e outras condições que afetam a qualidade óssea podem participar desse mecanismo.
Essa distinção ajuda a investigar a causa da lesão. Não basta tratar apenas a fratura: em alguns pacientes, também é necessário avaliar treinamento, alimentação, disponibilidade energética, saúde menstrual, densidade óssea e doenças ou medicamentos associados.
Quais são os sintomas da fratura por estresse do colo do fêmur?
A apresentação mais comum é uma dor de início gradual, sem um trauma evidente. Ela pode ser percebida na virilha, na parte anterior do quadril e, ocasionalmente, na lateral do quadril ou na coxa.
Os sintomas possíveis incluem:
dor na virilha ou no quadril durante corrida, saltos ou caminhada prolongada;
desconforto que inicialmente melhora com repouso, mas retorna ao retomar a atividade;
piora progressiva ao longo dos dias ou das semanas;
mancar durante ou depois do exercício;
dor ao apoiar o peso na perna afetada;
redução dolorosa da mobilidade do quadril;
dor em atividades diárias, em repouso ou à noite nos quadros mais avançados.
Os sintomas não são exclusivos da fratura por estresse. Tendões, músculos e estruturas dentro da articulação também podem provocar dor na virilha. A combinação entre evolução da dor, carga de atividade, fatores de risco e exame físico orienta a necessidade de investigação por imagem.
Saiba mais em: Dor no Quadril: Principais Causas e Sinais de Alerta
Saiba mais em: Dor na Virilha: Quando Pode Vir do Quadril?
Quem apresenta maior risco de fratura por estresse?
A lesão é mais descrita em esportes com impacto repetido, especialmente corrida de longa distância, mas pode ocorrer em diferentes modalidades e níveis de condicionamento.
Entre os fatores que podem aumentar o risco estão:
aumento rápido do volume, da intensidade ou da frequência de treinamento;
início recente de corrida ou de atividade militar intensa;
recuperação insuficiente entre as sessões;
histórico de lesão óssea por estresse;
baixa disponibilidade energética, quando a ingestão não acompanha a demanda do organismo;
alterações menstruais ou hormonais;
baixa densidade mineral óssea;
deficiências nutricionais relevantes;
doenças ou medicamentos que reduzem a resistência do osso.
Ter um desses fatores não confirma a lesão, e a ausência deles não a exclui. A avaliação procura identificar quais aspectos realmente contribuíram para o caso, inclusive em homens e em pessoas que não praticam esporte competitivo.
Quando a dor no quadril exige avaliação urgente?
Dor progressiva na virilha ou no quadril durante uma atividade de impacto, principalmente quando provoca mancar ou dificuldade para apoiar o peso, deve ser avaliada sem demora. Continuar correndo para “testar” a dor não é recomendado quando há suspeita de lesão óssea.
Procure atendimento com maior urgência se houver:
incapacidade ou grande dificuldade para caminhar;
dor intensa ao apoiar o peso;
sensação de estalo, falseio ou piora súbita durante o exercício;
dor que passou a ocorrer em repouso ou à noite;
progressão rápida dos sintomas;
queda recente associada à dor ou deformidade do membro.
Uma piora súbita pode indicar que a fratura se completou ou sofreu desvio. Nessas situações, não se deve insistir na caminhada ou aguardar a melhora espontânea.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico começa pela história clínica. O médico avalia o local da dor, sua relação com o exercício, a evolução dos sintomas e mudanças recentes no treinamento. Também investiga alimentação, menstruação, lesões anteriores, medicamentos, doenças e fatores relacionados à saúde do osso.
No exame físico, pode haver dor nos extremos da mobilidade do quadril, principalmente na rotação interna, desconforto na região anterior e limitação para apoiar o peso. Alguns movimentos que comprimem ou mobilizam a articulação podem reproduzir os sintomas.
Entretanto, nenhum teste físico isolado confirma ou afasta a fratura por estresse. Quando a história é compatível, a decisão de proteger o membro e solicitar exames não deve depender de uma única manobra.
A radiografia consegue mostrar a fratura por estresse?
A radiografia da pelve e do quadril costuma ser o primeiro exame solicitado. Ela pode mostrar uma linha de fratura, área de esclerose ou sinais de reação do osso. Também ajuda a avaliar outras alterações do quadril.
O principal cuidado é que a radiografia pode estar normal no início. As alterações ósseas podem levar semanas para se tornar visíveis, e algumas lesões nunca ficam claramente demonstradas no exame simples.
Portanto, uma radiografia normal não encerra a investigação quando a dor, o exame e os fatores de risco mantêm a suspeita de fratura por estresse do colo do fêmur.
Saiba mais em: Radiografia ou Ressonância do Quadril: Qual Exame é Indicado?
Quando a ressonância magnética é necessária?
A ressonância magnética é o exame mais sensível para identificar precocemente uma lesão óssea por estresse e determinar sua extensão. Ela pode demonstrar edema dentro do osso antes que surja uma linha de fratura visível na radiografia.
Quando a radiografia é negativa ou inconclusiva, mas a suspeita clínica permanece, a ressonância sem contraste costuma ser o próximo exame. Além de confirmar a lesão, ela ajuda a avaliar:
o lado do colo do fêmur comprometido;
a presença e a extensão da linha de fratura;
o grau de edema ósseo;
eventual derrame articular;
diagnósticos alternativos no quadril e na pelve.
A classificação pela ressonância participa da decisão entre tratamento sem cirurgia e fixação preventiva. O exame, porém, deve ser interpretado junto com a história clínica e a avaliação ortopédica.
Saiba mais em: Qual Exame Detecta Problemas no Quadril?
Tomografia ou cintilografia podem ser solicitadas?
A tomografia pode detalhar a cortical óssea e a configuração de uma linha de fratura, mas é menos sensível do que a ressonância para as fases iniciais da lesão. A cintilografia óssea foi muito utilizada no passado, porém tem menor especificidade e atualmente costuma ser substituída pela ressonância quando ela está disponível.
A escolha de exames adicionais depende da dúvida clínica, da disponibilidade, das contraindicações e da necessidade de planejamento do tratamento. Eles não devem atrasar a proteção do membro quando existe suspeita relevante.
Quais tipos de fratura por estresse podem ocorrer?
A localização e o tamanho da lesão influenciam o risco de progressão e a escolha do tratamento.
Lesão no lado da compressão
Costuma aparecer na região inferior e interna do colo do fêmur. Lesões incompletas e de menor extensão podem apresentar maior estabilidade, mas precisam de acompanhamento porque podem progredir.
Lesão no lado da tensão
Localiza-se na parte superior do colo e tende a apresentar maior instabilidade. Mesmo uma linha incompleta pode exigir abordagem cirúrgica preventiva, dependendo da avaliação.
Fratura completa ou com desvio
Representa uma situação mais grave. O desvio pode comprometer o suprimento sanguíneo da cabeça femoral e está associado a piores resultados. O tratamento costuma ser cirúrgico e urgente.
Essas categorias não devem ser interpretadas pelo paciente de forma isolada. A decisão considera as imagens, os sintomas, a capacidade de proteger o membro e características individuais.
Quais problemas podem parecer uma fratura por estresse?
A dor anterior do quadril ou da virilha possui diferentes diagnósticos possíveis. Entre eles estão:
tendinopatia do iliopsoas;
lesão dos músculos adutores;
impacto femoroacetabular;
lesão do labrum;
artrose do quadril;
dor proveniente da coluna lombar;
hérnia ou alterações da parede abdominal;
outras lesões ósseas da pelve ou do fêmur.
A fratura por estresse não deve ser descartada apenas porque a dor se parece com uma lesão muscular. O padrão de piora com impacto, a progressão dos sintomas e a dor ao apoiar peso são informações relevantes para diferenciar as causas.
Saiba mais em: Tendinopatia do Iliopsoas: Sintomas e Tratamento
O que fazer quando existe suspeita de fratura por estresse?
A atividade de impacto deve ser interrompida. Quando a suspeita envolve o colo do fêmur, pode ser necessário evitar o apoio de peso e utilizar muletas até que a lesão seja avaliada e classificada.
O tratamento depende do lado e da extensão da fratura, da presença de desvio e dos fatores do paciente. Lesões incompletas e estáveis podem ser tratadas com proteção de carga e acompanhamento por imagem. Fraturas do lado da tensão, extensas, completas ou deslocadas podem precisar de fixação cirúrgica.
Também é importante investigar e corrigir fatores associados, como erro de progressão do treinamento, baixa disponibilidade energética, alterações hormonais, deficiência nutricional ou perda de massa óssea. O retorno ao esporte deve ser gradual e condicionado à consolidação e à recuperação funcional.
Saiba mais em: Fratura do Colo do Fêmur em Idosos: Tratamento e Recuperação
Perguntas frequentes sobre fratura por estresse do colo do fêmur
A fratura por estresse pode acontecer sem queda?
Sim. O início costuma ser gradual e sem trauma importante. O acúmulo de cargas repetidas ou a fragilidade óssea pode produzir a lesão mesmo sem uma queda.
É possível caminhar com uma fratura por estresse?
Algumas pessoas ainda conseguem caminhar nas fases iniciais, mas isso não significa que a lesão seja segura. Dor ao apoiar o peso, mancar ou piora progressiva exige interrupção da atividade e avaliação, pois a fratura pode aumentar.
Uma radiografia normal descarta a fratura?
Não. A radiografia pode estar normal nas primeiras semanas. Se a suspeita clínica permanece, a ressonância magnética costuma ser necessária.
Qual é o melhor exame para confirmar o diagnóstico?
A ressonância magnética é o exame mais sensível para detectar precocemente a lesão e classificá-la. A radiografia permanece importante como avaliação inicial.
Quanto tempo leva para voltar a correr?
Não existe um prazo único. A recuperação depende do grau e da localização da lesão, do tratamento realizado, da consolidação e dos fatores de saúde óssea. O retorno precoce pode provocar recorrência ou progressão, por isso deve ser individualizado.
Fratura por estresse é o mesmo que osteoporose?
Não. A fratura por fadiga pode ocorrer em um osso com densidade habitual submetido a sobrecarga repetida. A osteoporose pode contribuir para uma fratura por insuficiência, mas é apenas uma entre as possíveis causas de fragilidade óssea.
Conclusão
A fratura por estresse do colo do fêmur deve ser lembrada diante de dor progressiva no quadril ou na virilha relacionada ao impacto, mesmo sem queda e mesmo quando a primeira radiografia é normal.
Interromper a atividade, proteger o apoio de peso e realizar a investigação adequada pode evitar a progressão para uma fratura completa ou com desvio. A ressonância magnética é fundamental quando a suspeita persiste e também ajuda a definir a gravidade da lesão.
Referências médicas
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Mountjoy M, Ackerman KE, Bailey DM, et al. 2023 International Olympic Committee Consensus Statement on Relative Energy Deficiency in Sport. British Journal of Sports Medicine. 2023.
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