Prótese Bilateral de Quadril: Operar os Dois Lados ao Mesmo Tempo?

Entenda quando a prótese bilateral pode ser feita no mesmo dia, quais são os riscos e como escolher entre cirurgia simultânea ou em etapas.

Dr. Gabriel Benevides

7/31/20269 min read

Representação anatômica de próteses nos dois quadris
Representação anatômica de próteses nos dois quadris

Quando os dois quadris apresentam artrose avançada ou outra doença com indicação de artroplastia, surge uma dúvida importante: é melhor operar os dois lados no mesmo dia ou realizar uma cirurgia de cada vez?

As duas estratégias podem ser adequadas. A prótese bilateral simultânea reúne os dois procedimentos em uma única internação e um único período de reabilitação. A cirurgia em etapas distribui o esforço cirúrgico em dois momentos e permite que o primeiro lado se recupere antes da segunda operação.

A escolha não depende apenas da preferência por “resolver tudo de uma vez”. Intensidade dos sintomas em cada quadril, idade biológica, anemia, doenças cardíacas ou pulmonares, risco de trombose, capacidade para caminhar e apoio disponível em casa precisam ser avaliados em conjunto.

Índice

  • O que é uma prótese bilateral de quadril?

  • Quando os dois quadris podem precisar de cirurgia?

  • Qual é a diferença entre cirurgia simultânea e em etapas?

  • Quais são as vantagens e limitações de cada estratégia?

  • Quem pode ser candidato à cirurgia no mesmo dia?

  • Como é a recuperação?

  • Quanto tempo esperar entre as cirurgias?

  • Perguntas frequentes

O que é uma prótese bilateral de quadril?

Prótese bilateral de quadril significa que os dois quadris são submetidos à artroplastia total. Em cada lado, a articulação comprometida é substituída por componentes acetabulares e femorais.

Isso pode ser realizado de duas formas:

  • cirurgia bilateral simultânea: os dois quadris são operados durante o mesmo ato anestésico e a mesma internação;

  • cirurgia bilateral em etapas: um quadril é operado primeiro e o outro em uma data posterior.

O termo “simultânea” não significa que duas equipes necessariamente operem ao mesmo tempo. Na maioria das situações, um lado é concluído e, ainda sob a mesma anestesia, o procedimento é realizado no lado oposto.

Saiba mais em: Prótese de Quadril: Quando é Indicada e Como é a Recuperação

Quando os dois quadris podem precisar de cirurgia?

A artroplastia pode ser considerada quando os dois lados apresentam doença avançada, dor persistente e limitação funcional apesar do tratamento não cirúrgico adequado. Artrose, osteonecrose, doenças inflamatórias e algumas deformidades podem comprometer ambos os quadris.

Entretanto, alterações nas duas radiografias não significam que os dois lados precisem ser operados. É comum um quadril causar sintomas importantes enquanto o outro apresenta desgaste com pouca repercussão na rotina.

A indicação deve ser feita separadamente para cada lado. O médico avalia dor, mobilidade, dificuldade para caminhar, impacto no sono e nas atividades, resposta aos tratamentos anteriores e correspondência entre sintomas, exame físico e imagens.

Operar os dois quadris ao mesmo tempo ou em etapas?

Não existe uma resposta única. Estudos comparativos mostram que as duas estratégias podem produzir melhora da dor e da função, mas possuem perfis diferentes de esforço perioperatório, transfusão, internação, reabilitação e utilização de recursos.

A interpretação desses estudos exige cuidado. Pacientes escolhidos para a cirurgia simultânea costumam ser mais jovens e ter menos doenças clínicas, o que dificulta comparar diretamente os grupos. Além disso, grande parte da evidência disponível vem de estudos observacionais, e não de ensaios clínicos randomizados.

Como funciona a cirurgia bilateral simultânea?

Os dois quadris são operados na mesma data. O paciente passa por uma única preparação pré-operatória, um ato anestésico, uma internação e um período de afastamento das atividades.

Em contrapartida, o tempo total da operação é maior e o organismo enfrenta o impacto dos dois procedimentos de uma vez. A perda sanguínea e a necessidade de transfusão podem ser maiores em determinados grupos, e os dois membros estarão em recuperação desde o início.

Como funciona a cirurgia em etapas?

Na estratégia em etapas, o lado mais sintomático costuma ser operado primeiro. Após recuperação clínica e funcional, reavalia-se o momento adequado para o segundo quadril.

Esse planejamento distribui o esforço cirúrgico e permite utilizar a perna ainda não operada como apoio na primeira recuperação. Porém, são necessárias duas internações, dois atos anestésicos e dois períodos pós-operatórios.

Quais podem ser as vantagens de operar os dois lados no mesmo dia?

Em pacientes cuidadosamente selecionados, as possíveis vantagens incluem:

  • uma única anestesia e internação;

  • um único período de reabilitação e afastamento do trabalho;

  • menor tempo total somando as duas internações;

  • correção dos dois quadris sem permanecer meses limitado pelo lado não operado;

  • redução de alguns custos cumulativos relacionados a duas admissões hospitalares.

A recuperação funcional também pode avançar sem que a dor do quadril oposto limite os exercícios. Isso pode ser relevante quando os dois lados apresentam comprometimento semelhante e grave.

Esses benefícios são potenciais, não garantias. A vantagem prática depende da condição clínica, da estrutura hospitalar, do protocolo de reabilitação e do suporte após a alta.

Quais são as limitações e os riscos da cirurgia simultânea?

Operar os dois lados aumenta a duração do procedimento e concentra o impacto fisiológico em um único momento. Entre os pontos que merecem atenção estão:

  • maior perda sanguínea e possibilidade de transfusão;

  • maior demanda cardiovascular e pulmonar durante e após a cirurgia;

  • dificuldade inicial maior para levantar, caminhar e realizar transferências;

  • necessidade de apoio familiar ou profissional mais estruturado;

  • possibilidade de alta para reabilitação em vez de retorno direto para casa;

  • exposição simultânea dos dois quadris às complicações cirúrgicas.

Infecção, trombose, embolia pulmonar, luxação, fratura, lesões neurovasculares e complicações clínicas são possíveis em qualquer artroplastia. A frequência exata varia conforme o perfil do paciente e o serviço. Por isso, médias publicadas não substituem a estimativa individual de risco.

Saiba mais em: Trombose Após Prótese de Quadril: Riscos e Prevenção

Quem pode ser candidato a operar os dois quadris no mesmo dia?

A cirurgia simultânea tende a ser considerada para pessoas com indicação clara nos dois lados e boa reserva clínica. Não existe um único limite de idade ou uma regra isolada que determine a escolha.

A avaliação costuma considerar:

  • condição cardíaca e pulmonar;

  • presença de anemia e necessidade de otimização do sangue;

  • função renal e controle metabólico;

  • diabetes, obesidade, tabagismo e risco de infecção;

  • histórico de trombose ou distúrbios de coagulação;

  • fragilidade, força muscular e capacidade de usar andador;

  • complexidade prevista de cada quadril;

  • apoio em casa e possibilidade de fisioterapia.

Pacientes com doenças clínicas descompensadas, anemia importante, fragilidade, risco cardiopulmonar elevado ou reconstruções tecnicamente complexas podem se beneficiar de uma abordagem em etapas.

A decisão também envolve anestesista, equipe clínica e hospital. Uma cirurgia bilateral deve ser realizada em ambiente preparado para controle de sangue, prevenção de trombose, mobilização precoce e tratamento de possíveis intercorrências.

Quais exames são feitos antes de decidir?

Radiografias da bacia e dos quadris ajudam a confirmar a gravidade e planejar os componentes. Exames laboratoriais avaliam hemoglobina, função renal, glicemia e outros fatores relacionados à segurança.

Conforme idade e histórico, podem ser necessários eletrocardiograma, avaliação cardiológica, exames pulmonares ou investigação adicional. A revisão de medicamentos é importante, especialmente anticoagulantes, antiagregantes e remédios para diabetes.

Também é útil verificar se o paciente dispõe de andador, ambiente doméstico seguro e alguém que possa auxiliar nas primeiras semanas. Planejamento social e funcional faz parte da segurança da cirurgia, sobretudo quando os dois lados serão operados.

Como é feita a cirurgia bilateral?

Cada quadril passa pelas mesmas etapas essenciais de uma artroplastia: acesso à articulação, preparo do acetábulo e do fêmur, implantação dos componentes, avaliação de estabilidade e fechamento.

Após concluir o primeiro lado, a equipe reposiciona e prepara o paciente para o segundo procedimento conforme a via de acesso utilizada. Antes de prosseguir, são avaliadas condições como estabilidade hemodinâmica, perda sanguínea e segurança anestésica.

Mesmo quando a cirurgia bilateral foi planejada, a prioridade continua sendo a segurança. Diante de uma intercorrência ou alteração clínica relevante, pode ser necessário não realizar o segundo lado naquela data.

Saiba mais em: Como é Feita a Cirurgia de Prótese de Quadril?

Como é a recuperação quando os dois lados são operados?

A mobilização costuma começar precocemente, de acordo com a condição clínica e a estabilidade dos implantes. Como as duas pernas foram operadas, o uso de andador e a supervisão da equipe são especialmente importantes no início.

Sentar, levantar da cama, usar o banheiro e caminhar pequenas distâncias fazem parte dos primeiros objetivos. A fisioterapia trabalha marcha, força, mobilidade e segurança nas atividades diárias.

A recuperação simultânea pode exigir mais ajuda nas primeiras semanas, mas concentra a reabilitação em um único período. Na cirurgia em etapas, a primeira perna pode servir de apoio durante a segunda recuperação, embora o processo total se prolongue.

Saiba mais em: Fisioterapia Após Prótese de Quadril: Quando Começar?

Quanto tempo esperar entre as duas cirurgias?

Não existe um intervalo universal. A segunda cirurgia deve ser programada quando o paciente tiver recuperado condição clínica, hemoglobina, mobilidade e segurança suficientes para enfrentar um novo procedimento.

O tempo pode variar de semanas a meses. A intensidade da dor no lado ainda não operado, a evolução da primeira recuperação, complicações, doenças clínicas e necessidades pessoais influenciam a decisão.

Alguns estudos observacionais avaliaram diferentes intervalos, mas seus resultados não permitem estabelecer um prazo obrigatório para todos. A data deve ser individualizada após reavaliação, e não definida automaticamente antes de observar a recuperação do primeiro lado.

É melhor operar primeiro o quadril que dói mais?

Quando a cirurgia será feita em etapas, geralmente se prioriza o lado que provoca maior dor e limitação. Entretanto, outros fatores podem modificar a ordem, como deformidade, força muscular, diferença no comprimento dos membros e complexidade técnica.

Em alguns pacientes, o quadril aparentemente “melhor” piora depois da primeira cirurgia porque passa a receber mais carga durante a reabilitação. Isso não significa que o primeiro procedimento causou a doença do outro lado; muitas vezes o comprometimento já existia e se torna mais evidente.

Como escolher entre cirurgia simultânea e em etapas?

A escolha deve equilibrar conveniência e segurança. A cirurgia simultânea pode reduzir o número de internações e concentrar a recuperação, mas exige maior reserva fisiológica e suporte no pós-operatório. A operação em etapas oferece uma recuperação por vez, porém duplica parte do processo hospitalar.

Uma decisão bem fundamentada responde a quatro perguntas:

  1. Os dois quadris realmente têm indicação cirúrgica neste momento?

  2. O paciente possui condição clínica para o impacto de dois procedimentos?

  3. A equipe e o hospital estão preparados para uma artroplastia bilateral?

  4. Existe suporte adequado para uma recuperação com os dois membros operados?

A preferência do paciente importa, mas deve ser considerada dentro dos limites de segurança definidos pela avaliação médica e anestésica.

Perguntas frequentes

A prótese bilateral é mais perigosa?

Ela concentra o esforço de duas cirurgias em um único momento e pode aumentar perda sanguínea e demanda clínica. Em pacientes bem selecionados, estudos mostram que pode ser realizada com resultados adequados. O risco individual depende mais da saúde, da complexidade e da estrutura assistencial do que do nome do procedimento isoladamente.

A recuperação é duas vezes mais difícil?

Não necessariamente, mas os primeiros dias podem exigir mais ajuda porque não existe uma perna não operada para servir de apoio. Por outro lado, há apenas um período global de reabilitação.

Os dois quadris recebem a mesma prótese?

Nem sempre. O planejamento é feito para cada lado. Tamanho, posição e até alguns componentes podem variar conforme a anatomia e a qualidade óssea de cada quadril.

É possível desistir do segundo lado durante a cirurgia?

Sim. Se houver instabilidade clínica, perda sanguínea relevante ou outra condição que aumente o risco, a equipe pode interromper o plano bilateral e programar o segundo quadril para outro momento.

Qual opção oferece o melhor resultado?

As duas estratégias podem melhorar dor e função. Não há uma opção universalmente superior. O melhor planejamento é aquele que trata os dois quadris com segurança e respeita o perfil clínico e funcional do paciente.

Conclusão

A prótese bilateral de quadril pode ser realizada no mesmo dia ou em duas etapas. A cirurgia simultânea reúne anestesia, internação e reabilitação, mas concentra o impacto dos dois procedimentos. A estratégia em etapas distribui esse esforço e permite avaliar a primeira recuperação antes da segunda operação.

A decisão deve começar confirmando que os dois quadris realmente precisam de artroplastia. Depois, condições clínicas, anemia, risco cardiopulmonar, complexidade cirúrgica, estrutura hospitalar e apoio em casa orientam a escolha mais segura.

Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui consulta médica, exame físico ou orientação individualizada.

Referências

  • Peng L, Peterson B, Singh A, et al. Simultaneous or Staged Bilateral Total Hip Arthroplasty: An Analysis of 82,897 Patients. JAAOS Global Research & Reviews. 2025.

  • Simultaneous versus staged bilateral total hip arthroplasty: a systematic review and meta-analysis. Journal of Orthopaedic Surgery and Research. 2022.

  • Mortality and Implant Survival With Simultaneous and Staged Bilateral Total Hip Arthroplasty: Experience From the Australian Orthopaedic Association National Joint Replacement Registry. Journal of Arthroplasty. 2020.

  • Sun K, Zhou J, Wu Y, et al. The Interval of Two-Stage Bilateral Total Hip Arthroplasty under Enhanced Recovery Affects Perioperative Complications and Cost of Hospitalization. Orthopaedic Surgery. 2023.

  • American Association of Hip and Knee Surgeons. Patient information about total hip arthroplasty and perioperative care.

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